Latest Entries »

 

Fazenda Altamira (Roça de Cima

 

).

“Terreiro Centenário de Cachoeira Ameaçado de Destruição – BA
Contraste entre a roça de cima e a de baixo. A partir daí a roça de cima de Azonsu (em ruínas, mas local de axés plantados e obrigações do culto dos antepassados)começou a ser destruída para se transformar em condomínio de luxo.

A  Roça do Ventura com árvores centenárias de valores religiosos,  histórico e cultural esta sendo devastada arbitrariamente sem o alvará  do CREA pois quando questionado ao responsável pela terraplanagem ele  não emitiu nenhum documento que comprovasse a legalização da obra .
Segundo  Cacau Nascimento, em seu Blog parte da Roça de Ventura, como é  conhecido o terreiro de candomblé jêje marrin denominado Zô Ôgodô Bogum  Malê Seja Hundê, está sendo invadida pelo posseiro da Fazenda Altamira, o  advogado Ademir Passos. Segundo o ogan responsável pelo terreiro, um  trator está desmatando a área, provavelmente para iniciar imediatamente a  construção de um condomínio residencial. Segundo ele, o tratorista por  pouco não derrubou uma árvore sagrada, plantada em 1878, que fica  localizada no limite entre o terreiro e a fazenda.
A  fazenda Altamira, que a comunidade-terreiro do Seja Hundê chama de Roça  de Cima, pertencia na década de 1870 a José Maria de Belchior,  conhecido como Zé de Brechó. Nessa fazenda, ele, juntamente com a  africana Ludovina Pessoa, a responsável pela fundação do terreiro do  Bogum, de Salvador, fundaram o Seja Hundê de Cachoeira que depois da  abolição da escravatura se transferiu para a uma roça contígua, a citada  Roça de Ventura.
Vendido  em 1904 pelas irmãs e herdeiras de Zé de Brechó aos filhos de Zacharias  Milhazes, estes vendo muitas assombrações no lugar venderam, em 1912,  ao advogado Moyses Elpidio de Almeida,  Em 1922 a fazenda foi adquirida  pelo advogado Nelson Falcão em mãos de seu colega Moyses. Este, também  assombrado, vendeu  a Aurino Longuinho (que ao ver numa assombração  quase morre). Longuinho então revendeu , ou devolveu o pepino, ao Dr.  Nelson, que legou a seus filhos, que, assombrados, legaram a seus netos,  permanecendo até poucos dias atrás em mãos da última herdeira, Marta  Falcão. Assombrada, doava, oferecia a propriedade apela bagatela de 20  mil reais (15 mil morria). Muito barata para uma propriedade de 12  hectares de terras bem localizadas e cheias de axé plantados por  africanos.Segundo Cacau Nascimento,o porquê da barateza  era que o imóvel está até aqui atolado de dívidas com o INCRA, porque  tudo desmoronou, a trerra perdeu a força, como todos os outros  proprietários, se deu mal. O Seja Hundê está em processo de tombamento  pelo IPHAN e no projeto está incluída a área onde originou o terreiro.
O  empreendedor advogado Dr. Ademir Passos  tem lá suas razões para  encarar o negócio. Ele é também posseiro da problemática e irregular  fazenda Caquende, um balneário cheio de história, lugar onde acolheu Von  Martius e Von Spix, mas que foi abandonado pelo ex-deputado e  ex-vice-governador Edvaldo Brandão Correia. Dizem por aí que o Dr.  Ademir pretende fazer um condomínio de luxo, algo do tipo Costa de  Sauípe.

(In:http://fazervaleralei.blogspot.com/2010/09/terreiro-centenario-de-cachoeira.html)

terça-feira, 20 de outubro de 2009

O CASO FAZENDA ALTAMIRA

Imagem

 
MAIORIA DA CÂMARA DE VEREADORES DE CACHOEIRA
NÃO APROVA COMPRA DA FAZENDINHA ALTAMIRA
 
Os excelentíssimos senhores edis de Cachoeira provaram por A mais B que vereadores não são merdas, como arrogantemente canta de galo o excelentíssimo.A proposta de negociação da fazendinha de 12 hectares denominada Altamira (que pertenceu a Zé de Brechó e funcionou o terreiro de candomblé jêje marrin Zôogodô Bogum Malê Seja Hundê) à PMC por 1 milhão de reais gorou, não deu certo, o golpe foi abortado, sifu. Que farra não seria: 1 milhão de reais por uma fazendola localizada num lugar sem nenhuma infraestrutura. Bom, o lugar é deverasmente inedaquando para se construir um sistema prisional, um quartel de corpo de bembeiros e o prédio do Ciretram; porém – é aí onde está o x da questão, a supervalorização do imóvel, o motivo central da tramóia: a fazendazinha fica pertinho do posto de gasolina.
Soube por uma fonte fidedigna que o edil José, o Bulau – que já foi do PV e agora é de que partido mesmo? – leu na última sessão da Casa da Independência a matéria publicada neste blog intitulada “O Esquema é o Seguinte”. que embasou seu discurso de não aceitação da indecorosa proposta, ou melhor, da negociata. Taí, o Cachoeira Online está cumprindo o seu papel social e informativo. Está esse blogueiro evidenciando isto, não para dizer: viu aí? etc e tal. Evidencia o fato porque ficou surpreso um edil que circula quase que cotidianamente nas páginas desse blog não engrossar as fileiras dos que o detesta, mas que lê e aceita com a dignidade de um homem público, democraticamente, o que esse blog veicula sobre esta erótica e malfadada jungla.  Aí excelentíssimo Bulau da Bahia, você está crescendo, cara!
 
 
Postado por Luiz Cláudio Dias do Nascimento

Saiu na Tribuna da Bahia

 
O luxo ameaça a História
 Imagem
Valdemir Santana
29/09/2010
 
Uma corrente de intelectuais baianos, liderada pelo fotógrafo Adenor Gondim e pelo historiador e Mestre em “Estudos étnicos e africanos” Cacau Pinheiro [Nascimento], faz denúncias sobre a construção de um condomínio de luxo em Cachoeira, a 108 Km de Salvador, que ameaçaria destruir um dos mais antigos terreiros de candomblé do país, o {Zô] Ogodô Bogum Malê [Seja Hundê]. A denúncia de destruição do terreiro, feita através de mensagens pessoais e blogs na Internet, mostra implicações religiosas, folclóricas, ambientais, fundiárias e históricas, com vários desdobramentos. Para se ter ideia das implicações religiosas e históricas, basta lembrar que o terreiro teria sido fundado por uma mesma sacerdotisa, a africana Ludovina Pessoa, que também levou o axé, ou energia ritual, para outro grande terreiro em Salvador, o Bogum Malê Rundó, no bairro do Engenho Velho da Federação. Tem mais implicações com a história das Américas. No local do terreiro, um autêntico balneário tropical, teria se hospedado uma das mais famosas equipes de cientistas europeus que passaram no Brasil Império: a dupla formada pelo botânico e antropólogo alemão Carl Friedrich von Martius e o colega naturalista Johann Baptiste von Spix. Nos relatos da denúncia é citado que um advogado comprou terras de uma fazenda ao lado do terreiro, justamente o local onde ficou a dupla Martius e Von Spix, e começou a fazer terraplenagem para construir o condomínio. Os tratores teriam avançados sobre árvores sagradas para o candomblé, plantadas no início do século XIX.
 

 O Capitão Zé de Brechó

 

 

                       

Homenagem póstuma

 

 

 

 

 

À esquerda, residência de Maria Motta, no Largo dos Remédios. À direita,  igreja de N. S. dos Remédios, reformada em 1853 pela Irmandade jêje dios Martírios. Ao lado da igreja, a residência de Maria Motta violentamente reformada . Abaixo, Bitedô (Alto do Cruzeiro), vendo-se no sopé o complexo industrial de Jacomim Vaccarezza. A foto à direita foi um presente da família do senhor Walter Maia, neto do padre Eráclio e gente da família de Zé de Brechó. A foto da direita é de minha autoria. a foto do Bitedô é de autoria desconhecida e a original se encontra no Arquivo Nacional do Rio de Janeiro.

Hoje (16), faz 108 anos que faleceu José Maria de Belchior, conhecido como Zé de Brechó. Filho dos africanos Belchior Rodrigues Moura e Maria Motta, Zé de Brechó se notabilizou como o fundador do terreiro de candomblé Zô Ogodô Bogum Malê Seja Hundê, conhecido como Roça de Ventura, que ainda persiste. Além de sacerdote, Zé de Brechó se destacou como político, sendo eleito por duas gestões suplente de conselheiro municipal, cargo que corresponde atualmente ao de vereador. Na década de 1860, foi presidente da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário do Sagrado Coração de Maria do Monte da Rua Formosa (Irmandade dos Nagôs), atraindo para essa agremiação religiosa pessoas destacadas da sociedade cachoeirana, entre os quais o padre Eraclio Mendes da Costa, de quem era compadre (Zé de Brechó era padrinho do pai de Natanael Veloso).

Entre as décadas de 1870-80, adquiriu por compra o Sítio Xarém (depois Fazenda Altamira), aquela que num ato de desrespeito a PMC por pouco não comprou para construir o quartel do Corpo de Bombeiros e sede do Ciretran), onde fundou com a africana Ludovina Pessoa a mencionada Roça de Ventura. Em 1886, foi eleito presidente do Montepio dos Artistas Cachoeiranos, sociedade que ajudou fundar juntamente com seu irmão Salacó e outros negros proeminentes cachoeiranos, em 1874. Como fez na Irmandade dos Nagôs, atraiu para o Montepio pessoas relevantes de Cachoeira e Salvador, transformando aquela instituição em uma sociedade abolicionista.

Nada se sabe de seu pai, que faleceu de cólera em 1855. Sobre Maria Motta, sabe-se que ela foi uma das fundadoras da Irmandade da Boa Morte e fazia parte de um grupo de africanas economicamente emergentes moradoras da Recuada. Como uma família de posses, o casal Belchior Rodrigues Moura era proprietária do Sítio Bitedô, atualmente Alto do Cruzeiros, de onde se tem notícias orais da existência de cerimônias afrorreligiosas dedicadas à divindade Azonsur (Obaluaiyê). Além do sítio Bitedô, possuía ainda algumas casas na Rua dos Remédios, Barão de Nagé e a residência onde nasceram seus filhos, no Corta Jaca, imóvel atualmente pertencente a Idálio Meneses. Entre seus bens, possuía ainda seis escravos, todos africanos, dos quais um deles, uma africana chamada Maria, possui descendente (tataraneto) em Cachoeira.

Zé de Brechó faleceu de sífilis no dia 16 de abril de 1902, no Sítio Xarém. Seu corpo foi trasladado para a igreja Matriz, onde foi velado, sendo sepultado no cemitério dos Achatolicos. O jornal A Cachoeira, edição de 1º de maio de 1902, página 2, publicou uma nota intitulada “A Pedido”, com o seguinte teor:

Antônio Maria [Salacó], sua mãe e mais parentes do Capitão José Maria de Belchior, falecido nesta cidade no dia 16 deste mez, vem de publico manifestar sua não esquecida gratidão ás pessoas amigas e conhecidas que durante a moléstia o iam visitar e suavisarem os soffrimentos de seu saudoso parente, não o abandonando nunca, e depois da morte formando numeroso cortejo o conduziram até á ultima morada. Torna-se preciso que em toda extensão de seu reconhecimento não deixou de especializar amigos e desinteressados que deram as melhores provas de sentimento e correcção cavalheirosa. A estes que não mencionar os nomes podem perdão da offensa que vão fazer a sua modéstia, porque assim manda o dever, os que são: o ver. Vigário Heráclio Mendes da Costa; ao Conselho Municipal d’esta cidade, do qual o finado fazia parte; ás distinctas sociedades que depositaram coroas com inscrição em homenagem – Montepio dos Artistas Cachoeiranos, Beneficencia Cachoeirana e Centro Operário. Ás philarmonicas Minerva e União das Artes que compareceram executando musica fúnebres, das quais o finado era sócio. Aos amigos cavalheiros e amigo do finado os Exmº Snrs Drs Emiliano e Joaquim Viegas, residentes na Bahia, Joaquim Correia da Silveira e Souza e Pedro Alexandrino Belmiro que offertaram especiais coroas.

QUILOMBOS URBANOS E RURAIS, REBELIÕES ESCRAVAS E ORGANIZAÇÃO DE CULTOS AFRO-RELIGIOSOS EM CACHOEIRA – BAHIA
Cacau Nascimento
     historiador
Parte da narrativa deste artigo faz parte de um capítulo de minha dissertação de mestrado, que será publicada em livro com lançamento previsto no mês de maio do ano corrente.  A intenção de publicá-lo aqui tem sentido colaborativo, contribuir com a educação patrimonial, ajudar a estudantes e sensibilizar as autoridades no sentido de valorizar os espaços urbanos de Cachoeira construídos pela população negra.
            Durante a primeira metade do século XIX Salvador e seu Recôncavo assistiram a uma série de rebeliões escravas e elas são explicadas, entre outros, por três fatores importantes. O aumento do número de engenhos – e com ele o aumento da produção de açúcar – motivado pela expansão da economia a partir da segunda metade do século XVIII foi um deles.[1] Outro fator foi a intensificação do trabalho escravo na agricultura de exportação, principalmente a produção de tabaco nos campos cachoeiranos, em detrimento da produção de alimentos, que sofreu brutal encarecimento no período[2]. Por fim, em torno desses dois fatores merece destaque o aumento da população  escrava. Estima-se que em torno de oito mil chegavam anualmente à Bahia fazendo com que 60 por cento da população escrava baiana fosse constituída de africanos, a maioria oriunda do Golfo do Benin, atual  República Popular do Benin, e Nigéria, aqui denominados jêjes e nagôs, respectivamente.
            No Recôncavo rebeliões escravas foram mais freqüentes na Freguesia de Santiago do Iguape, zona açucareira de Cachoeira, a mais importante vila baiana.  De 1814 até 1828 aconteceram com alguns intervalos pelo menos seis rebeliões que exigiram a mobilização de contingentes policiais e gente armada para conter centenas de africanos de vários engenhos que em conjunto promoviam incêndios em canaviais, assassinavam feitores, saqueavam casas-grandes. Em Santiago do Iguape nessa época havia em torno de cinqüenta engenhos repartidos em uma área de aproximadamente 130 km2, área que corresponde a 1/3 do território de Cachoeira, que é de 398,5 km2. Os engenhos, portanto, não eram grandes latifúndios, o que significa dizer que eles ficavam a pouquíssima distância um do outro. Isso facilitava a interação e o contato entre escravos, principalmente africanos, não só no convívio cotidiano e nos momentos de celebrações festivas, mas também e principalmente nos momentos de conflitos.
Com exceção de duas rebeliões que aconteceram na vila de Cachoeira em 1828, as de 1814, 1826, 1827[3] foram deflagradas por africanos dos engenhos da Ponta, Vitória, Buraco, Moinho, Conceição, Novo e Desterro. Esses engenhos – e ainda outros a eles contíguos, como os engenhos Calolé, Cruz, Calembá, Cabonha, São Antonio do Acu (Engenhoca) e Rosário – eram os mais importantes do Iguape. Eles eram contíguos e juntos perfaziam uma área de 45.000 hectares (45 km2), isto é, representava um pouco mais de 1/3 da área total do Iguape.
Interessante notar ainda – e isto é o que queremos analisar – que os engenhos acima citados estavam localizados no limite da vila de Cachoeira com a freguesia de Santiago do Iguape, limite esse que começa do engenho Rosário até o Engenho Guaíba, este localizado após o engenho Embiara. Essa fronteira, desde a sua porção norte (engenho Rosário) até a porção sul (engenho Guaíba), era partilhada por pequenos sítios onde residia uma significativa população de ex-escravos, principalmente africanos, ligados tanto à vida urbana quanto rural. Considerando então que a média da população de um engenho era de 100 negros para 6 brancos e mulatos,  a população escrava dos treze engenhos aqui citados gravitava em torno de 1.300 indivíduos, o que corresponde 1/3 da população escrava da Freguesia de Santiago do Iguape em 1835[4].
Quantos eram os africanos? Tomemos como base quatro engenhos de grande porte: os engenhos da Cruz, de Manoel  Pereira de Macedo Aragão, Santo Antonio do Acu (Engenhoca), de Felippe Pereira Pinto de Souza, Novo, do Tenente-Coronel Rodrigo Antonio Brandão Falcão e Vitória, do Comendador Pedro Rodrigues Bandeira. Num recenseamento de 1825 no engenho da Cruz havia 50 escravos. Trinta e seis deles eram africanos, sendo que 22 eram mulheres. No engenho Santo Antonio do Acu havia 109 escravos, a maioria mulheres, que totalizavam 61 indivíduos. Quarenta e três escravos eram africanos. Já o engenho Novo a população escrava somava 111 pessoas, dos quais 61 eram africanos. Do total de africanos, 16 eram nagô, 2 eram jêje e 8 eram aussá. Curiosamente o engenho Novo possuía apenas 4 escravos crioulos e 1 cabra, isto é cinco escravos nascidos no Brasil. O restante era africano proveniente da região de Angola.  Já o engenho Vitória a população escrava crioula era majoritária. No total esse engenho possuía 217 escravos, dos quais 32 deles eram africanos, para 185 indivíduos escravos nascidos no Brasil, repartidos pelas categorias crioulo, cabra e pardos[5].
Esse contingente africano dado a rebeliões residindo em engenhos próximos um do outro  e localizados nas fronteiras da vila de Cachoeira propiciava a interação com outros africanos, principalmente africanos livres e libertos, que eram numerosos e viviam ao ganho na zona urbana, possibilitando a formação de redes de comunicação para a organização e estratégia de revoltas.
Embora Cachoeira no século XIX fosse um território habitado em sua maioria por crioulos, cabras e pardos, residiam muitos africanos oriundos do Golfo do Benin, que eram os jêjes e os nagôs. Em um recenseamento eclesiástico realizado em 1824, residiam na vila de Cachoeira 2.593 pessoas[6]. Sem considerar o número de habitantes declarados brancos, que somavam 811 pessoas, entre homens e mulheres, do total de 1.782 negros (divididos pelas categorias pardo, cabra e crioulo), 500 eram africanos, dos quais 50 estavam incluídos entre os  282 libertos, homens e mulheres.
Tabela 1 . População parcial  da cidade de Cachoeira – 1824
Ingênuo
Liberto
Cativo
h
m
h
m
h
m
h
M
Brancos
358
453
X
X
X
X
X
X
Africanos
221
279
X
X
17
33
204
246
Pardos
334
494
234
394
31
46
69
54
Cabras
104
173
41
52
11
51
52
70
Crioulos
175
331
25
45
26
67
124
219
Ingleza
X
1
X
X
X
X
X
X
Mestiça
X
1
X
X
X
X
X
X
Totais
1.192
1.732
300
491
85
197
449
586
A partir da segunda metade do século em referência esses números devem ter aumentado, visto que o modo de produção escravista sofreu significativas transformações, facilitando o aumento de manumissões e com isso a vinda para Cachoeira de ex-escravos provenientes de engenhos de açúcar do Recôncavo e de vilas sertanejas baianas[7]. Dos 220 ganhadores matriculados no ano de 1888, por exemplo, apenas 13 ganhadores eram cachoeiranos; seis eram africanos já velhos e antigos moradores de Cachoeira, e 201 ganhadores eram naturais de várias localidades, a maioria oriunda da zona sertaneja produtora de tabaco próxima de Feira de Santana[8]. Onde e como vivia essa população negra liberta?
Uma pesquisa por nós realizada recentemente no Cartório de Registro Civil do Fórum Augusto Teixeira de Freitas, de Cachoeira, identificando os últimos africanos residentes nessa cidade no período de 1894 a 1970[9], das aproximadamente 10 mil declarações de óbitos analisadas identificamos 120 africanos, dos quais 35 residiam em um núcleo habitacional denominado Recuada (que falaremos adiante). Vinte e sete africanos residiam em outro núcleo denominado Alto do Chafariz, na zona central da cidade. Vinte e cinco africanos residiam em vários endereços e 33 africanos não tiveram endereço declarado porque faleceram no hospital São João de Deus, da Santa Casa de Misericórdia. Com efeito, o número de moradores da Recuada e Alto do Chafariz pode ser maior se considerarmos que alguns dos 33 africanos sem endereço podem ter sido moradores dos referidos núcleos.
A partir da segunda metade do século XIX até primeira metade do século seguinte, apesar de nesse momento a outrora vila mais populosa e rica da Bahia estivesse em fase de declínio, ainda desfrutava o status de cidade progressista, principalmente porque investia-se pesado na manufatura do fumo, essa parcela majoritária de africanos e crioulos convivia com europeus de variadas nacionalidades, segmento esse que se tornou dominante do ponto de vista sócio-econômico[10]. Cachoeira se tornou uma cidade segregadora, dividida por categorias sociais, portanto. Assim, alemães ligados à manufatura de fumo unia-se a ingleses ligados à Estrada de Ferro e, conjuntamente, freqüentavam a mesma igreja protestante, o mesmo clube social e era sepultado em cemitério construído exclusivamente para eles. O mesmo acontecia com os grandes comerciantes e industriais portugueses, que professavam a mesma religião (Católica, no caso), mas que se dividiam em subgrupos e freqüentavam a igreja de sua irmandade predileta, residiam no mesmo condomínio, exercia domínio sobre determinado território urbano para defender seus interesses políticos partidários e, ao falecerem, eram sepultados em cemitério próprio.
Em torno dessa dinâmica social africanos e seus descendentes criaram igualmente estratégias de sobrevivência com poderes compatíveis àqueles outros grupos, capazes de criar também instituições civis – como associações de classes, clubes sociais -, instituições religiosas – como igrejas católicas e terreiros de candomblé -, e cemitério próprio.
O mais importante deles foi o núcleo da Recuada. Recuada era uma porção de terras pertencente a Antônio José Fiusa da Silveira[11], localizada numa zona baldia e insalubre do rossio[12]. Durante o século XVII essas terras faziam parte do engenho Pitanga, pertencente ao Capitão Gaspar Rodrigues Adorno, ou ao sargento-mor Álvaro Rodrigues Adorno, seu irmão[13], e abrangia todo o território do município de Cachoeira. Parece que esses netos de Caramuru não se interessaram pelas terras, desfazendo-se logo depois. Em 1775, Margarida Rodrigues Adorno, filha de Álvaro Adorno, residia, com seus oito escravos, numa casa de taipa “junto ao hospital” em terras foreiras ao sargento-mor José Gonçalves Fiusa, não declarando em seu testamento mais nenhum bem[14].
José Gonçalves Fiusa era português, possivelmente natural da Freguesia de São Salvador de Bronandos, Termo de Ponte de Lima, Arcebispado de Braga[15], filho de Luis Gonçalves Fiúza e Beatriz Pereira de Araujo. No seu inventário, datado de 1799, consta que grande parte das terras de Cachoeira, inclusive a que compreende a atual área urbana, lhe pertencia[16]. Certamente Antônio José Fiusa da Silveira era seu parente, herdando parte de suas terras, principalmente as “terras do Pasto desta vila, da ponte do [rio] Pitanga até o Capoeiruçu e Faleira”, ou seja, a Recuada, como consta em seu inventário datado de 1881[17].
Nesse núcleo surgiram quatro agrupamentos (arruados). Eram eles: Curral Velho, Corta-jaca, Galinheiro e Bitedô. O Corta-jaca (depois denominado Rua de Belchior e atualmente Rua dos Remédios), situava-se à margem do riacho Pitanga e distava, aproximadamente, 300 metros lineares da Ponte Velha[18], divisando aliás, por um pequeno sítio onde se plantavam hortaliças e legumes. Era o agrupamento que fazia fronteira com a área urbana formal. Curral Velho (hoje praça Marechal Deodoro), era o matadouro público, ligado ao Corta-jaca pela Rua do Rosarinho (atualmente Rua Alberto Rabelo) e à área formal pelas Ruas da Faísca e Lama.
 Imagem
Zona que separava a área urbanizada e a Recuada
O agrupamento do Galinheiro localizava-se contíguo ao Corta-jaca, separado por uma praça que margeava o riacho Soberbo (hoje canalizado). O Galinheiro era um arruado incrustado no sopé do morro Bitedô, que lhe servia de bastião. O termo Galinheiro, supostamente, é uma referência a africanos Galinhas, como eram conhecidos os africanos Grunsci no Brasil. Já o Bitedô era muito complexo. Tratava-se de um morro íngreme localizado a cavaleiro desses dois primeiros núcleos citados. Pela sua altura era possível ter uma visão panorâmica de toda a área urbana, inclusive de parte do Rio Paraguaçu.  Junto ao morro Bitedô, numa depressão, formava-se outro morro muito maior, conhecido por Capapina.
Antes do falecimento de José Antonio Fiusa da Silveira, em 1856, parte dessas terras  foi por ele vendida, doada para construção de igrejas e construção de casas, esta,  mediante pagamento de foros. As terras que hoje compreendem a Praça Augusto Régis (antigo Rua do Moinho), incluindo o morro Bitedô (Atualmente Alto do Cruzeiro e Ladeira Manoel Vitório) e Rua 28 de Junho (antiga Rua do Cemitério), foram compradas por José Joaquim d’Oliveira. Consta no livro de registro de terras de Cachoeira de 1858 que
José Joaquim d’Oliveira, morador n’esta Freguesia, possue uma sorte de terras no rio Pitanga d’esta cidade, que as houve pôr compra a José Antonio Fiusa da Silveira, e se divide com as do vendedor pelo outeiro fronteiro ao Moinho [Alto do Cruzeiro] até seu cúme; deste a estrada que vai do simiterio para Belém [Ladeira Manoel Vitório], por esta até encontrar com terras de Francisco Fernandes da Costa, dividindo-se com este até o Rio Pitanga com Domingos Joaquim de Vasconcellos, com Domingos Moreira, com Alberto Teixeira Guedes, com José Caetano Alvim, e com Antonio Moreira Barreto, conforme escritura. Cachoeira, 28 de julho de 1858. O Vigário Dionísio Borges de Carvalho.
O Moinho a que se faz referência no registro das terras de José Joaquim era um moinho de milho de propriedade de Jacomim Vaccareza. Jacomim era proprietário de uma parte da divisão da fazenda Pitanga (hoje o Resort Clube Fazenda Pitanga),  anteriormente pertencente aos conquistadores de Cachoeira, os irmãos Adorno, que já fizemos referência, e, posteriormente, à família Fiúza. A parte pertencente a Jacomim divisava pelo lado oeste com as terras do Bitedô e pelo nascente com as terras de Manoel Vasconcellos de Souza Bahiana, que no seu testamento, datado de 1842, legou aos seus cinco filhos[19].
O povo-de-santo identifica uma casa no Galinheiro, que no início do século XX pertenceu a um babalaô chamado Pedro Pequeno, pejigã do candomblé de Tia Ágda, onde antigamente realizava-se “candomblé de Malê – que sacrificava ovelhas, usava óleo de rícino em vez de azeite, utilizava-se de um caixão mortuário em seus ritos e era proibida a presença de crianças – como eles denominam o que possivelmente eram cultos islâmicos. A tradição oral rememora ainda a existência de africanos fardados com trajes de guerreiros e armados de porretese outras armas brancas, que impediam o acesso de estranhos ao local[20]. Era um local que “só entrava quem tinha negócio”, uma expressão muito apropriada para defini-lo como um possível quilombo.
Nas nossas várias interlocuções com o senhor Ambrósio Bispo Conceição, 87 anos, morador do Bitedô, onde nasceu e foi criado, sempre o ouvi dizer que os africanos moradores do Bitedô e da Capapina plantavam jiló, maxixe, quiabo e outros legumes ao amanhecer e, ao anoitecer desse mesmo dia, colhiam já os frutos para a refeição noturna[21]. Outras pessoas antigas de Cachoeira têm suas versões similares. Ainda hoje o morro da Capapina e do Bitedô são objeto de medo e temor porque acreditam que espíritos de africanos e índios ainda habitam o local, impedindo a presença de estranhos. O provável, no entanto, é que se tratava de um grupo de aquilombados que saqueavam as hortas existentes entre o Corta-jaca e a Ponte Velha (atualmente praça Nossa Senhora do Rosário, onde ficam o mercado municipal e feira livre), como os gados que eram levados para o matadouro, no Curral Velho.
Em abril de 1853, um incêndio de grandes proporções destruiu em torno de sessenta casas no Galinheiro, vitimando várias pessoas, a maioria anciã e criança. As causas do incêndio nunca foram esclarecidas, mas o governo da província da Bahia indenizou parentes das vítimas e tomou precauções,  determinando ao comissário de polícia  investigar as causas dos constantes incêndios que estavam ocorrendo na cidade e evitar outros sinistros[22]. Naquele período ocorreram vários outros incêndios, sempre nos núcleos residenciais negros e na proximidade do Bitedô. Antes do incêndio do Galinheiro que estamos nos referindo um outro destruiu um núcleo, hoje denominado Rua do Fogo, na zona da Recuada. A justificativa dos médicos sanitaristas  era de que era preciso exterminar os focos de lixos que exalavam gases pestilenciais nocivos à saúde, recomendando que aqueles monturos fossem queimados ou enterrados em locais distantes das aglomerações humanas.
No dia 16 de janeiro de 1850 um caso de febre amarela em São Felix se alastrou para Cachoeira e daí atingiu um raio de 96 km (16 léguas). Falta de medicamentos, medicação errada, médicos receosos de contrair a doença provocaram muitas vítimas.  Em 1853, temendo novo surto, os médicos Antônio Cerqueira Pinto, Joaquim Moreira Sampaio, de São Felix, e Antônio José Alves, de Cachoeira, enviaram uma petição ao Juiz de Direito da Comarca de Cachoeira, Innocencio Marques de Araujo Góes,  expondo exaustivamente  as causas da proliferação da epidemia, culpando a falta de higiene e desinteresse em sanear a cidade. Diziam eles que “a epidemia é comum  nos lugares quente e humidos” e que “a temperatura e humidade são responsáveis pela formação de ovos de vírus nos lixos e locais lamacentos”. Mais adiante diziam que “muito ganharia a salubridade publica desta cidade se com brevidade compatível com os recursos de que dispõe a municipalidade auxiliada pelos cofres da Província se começasse e dentro em pouco se concluísse um caes que partindo do lugar denominado Manga [Pasto] fosse unir-se ao que já existe com o mesmo São João”. Para eles, a obra traria o ressecamento de uma grande superfície de terreno encharcado convertido quase todo em “esterquelino”.
Para resolver o problema os médicos fazem uma série de indicações que certamente diminuiria as causas das epidemias: “Este modo de obrear converia para subtrahir a população desta cidade aos efeitos dannosos de emanação de grandes monturos que nellas existem quando não fosse praticável a calcinação dellas pelas suas muita humidade, e aproximação das casas. Os regatos que atravessam a cidade são de ordinários os lugares escolhidos para deposito de immundicies de toda a espécie, acontecendo que alguns poucos abundantes de agoas interrompem com a cessassão das chuvas o seu curso, e se convertem em verdadeiros chacos…[23]
A Câmara se desculpava dizendo que os incêndios eram causados pela população que ateava fogo nos gravetos ressecados amontoados no verão após a limpeza das ruas, principalmente naquele ano quando a cidade estava sendo totalmente pavimentada, inclusive naquele perímetro onde os acidentes (ou incidentes) estavam ocorrendo. No entanto, no geral acreditava-se que aqueles incêndios eram propositais, intencionalmente localizados. O que se sabe de concreto é que a  cidade de Cachoeira naquele momento crescia no sentido de uma zona minada, reduto de africanos e crioulos que jogavam duro contra o poder. Era preciso então afastar  a vizinhança indesejada.
Essa zona recuada já quase urbana ligava-se a uma outra que se configurava propriamente rural mas que estava a pouca distância da cidade. No recenseamento de 1824, que já nos referimos, essa zona abrangia “as pessoas que habitão desde o princípio da Ladeira que sobe para Belém té a Manga a confinar no Engenho do Navarro”. Nós estamos nos referindo ao platô que circunda a cidade de Cachoeira, desde o seu extremo norte (Três Riachos, Capapina, Bitedô) ao extremo Sul (Caquende e Tororó). Eram duas as Ladeiras que sobre para Belém. Uma era a também denominadas Estrada dos Carmelitas e Ladeira da Cadeia (atualmente Rua Benjamim Constant) e outra pela Recuada. A da Recuada seguia no sentido da Faleira pelas terras do antigo Engenho Pitanga até encontrar com a Estrada de Belém, onde ambas encontravam o Engenho do Rosário no lugar chamado Ladeira do Padre Inácio, no limite da cidade de Cachoeira com o distrito do Iguape.
A do recenseamento em referência é a da Ladeira da Recuada. Seguindo o Engenho Rosário, de José Correia da Paraíba (depois pertencente a Antonio Olavo de Meneses Doria) no sentido Sul, chegava-se ao Engenho Conceição, do Comendador Pedro Rodrigues Bandeira (que por herança passou a pertencer ao Barão de Paraguassú), Morgado do Pinto, de Luis Pinto da Silveira, Engenho São Carlos do Navarro, do Desembargador Manoel Jacintho Navarro de Campos. O Engenho Conceição limitava-se ao Norte com o Engenho de São Carlos do Navarro; a Oeste, com o Rio Paraguaçu; a Sul, com o Engenho Vitória e, do Engenho Vitória, com a Terra Vermelha. O Engenho Rosário, limitava-se ao Norte com terras de Bernardo Mendes da Costa, que era o mais importante traficante de escravos de Cachoeira[24]; pelo Leste com o Engenho Desterro; pelo sul com a Faleira (na proximidade do Bitedô) e Fazenda Campinas e o Morgado do Pinto e, a Oeste, com a Roça de Ventura (o Zôogodô Bogum Malê Seja Hundê)[25]. O Morgado do Pinto limitava-se, com todos os engenhos citados e iniciava no atual bairro do Caquende, no sentido da Terra Vermelha, ou seja, era o caminho que ligava os mencionados engenhos à zona urbana pelo atual bairro do Caquende, ou pela Ladeira que sobre para Belém, ou pelo Bitedô.[26]
Nesse território residiam 3.617 pessoas, inclusive os moradores da Ladeira que sobe para Belém. Conseguimos o registro de apenas 7 sítios, 3 engenhos e 3 fazendas do total de aproximadamente 30 unidades agrícolas que possivelmente havia nessa localidade. Nas 13 unidades agrícolas residiam 582 moradores. Desse total, 130 pessoas eram africanas. Dos 130 africanos registrados, apenas 85 deles foram declarados escravos – 48 do total de escravos do Engenho do Rosário e  37 do Engenho da Conceição. No cômputo geral do alistamento, onde não são descriminadas as propriedades, no entanto, o número de africanos cresce para 462 africanos, dos quais 435 viviam na escravidão, 317 homens e 118 mulheres.
Tabela 2. População da zona recuada da cidade de Cachoeira
1824
INGÊNUO
LIBERTO
ESCRAVO
h
m
h
m
h
m
h
m
Branco
317
341
X
X
X
X
X
X
Pardo
541
628
464
540
32
38
45
50
Cabra
280
108
163
82
22
21
95
Crioulo
498
548
133
143
27
42
338
353
Africano
331
131
X
X
14
13
317
118
Totais
1967
1756
760
765
115
114
795
521
Essa zona intermediária  era o caminho mais fácil e rápido para se chegar a um lugar denominado Tabuleiro da Vitória, nas terras do Engenho Vitória, do Comendador Pedro Rodrigues Bandeira (depois de Manoel Jacintho Navarro de Campos). Tratava-se de uma zona extremamente belicosa, nevrálgica durante o período de insurreições  em que escravos africanos dos engenhos Guaíba e Vitória participaram de forma intensa[27]. Queremos com isso argumentar duas coisas.
Primeiro,  que nessa localidade, na Terra Vermelha, localizado no limite das terras do Morgado do Pinto com o Engenho do Navarro (Tororó), a pouca distância do Engenho Guaíba, existia uma localidade denominada Malaquia ou Malaquias, que a tradição oral afirma ter sido um quilombo onde irmãs da Boa Morte escondiam escravos fugidos. Nessa localidade ainda persistem três “terreiros” de candomblé fundados logo após a abolição São eles: Ici Mimó, L’Oba Nekun e Ilê Eran Opê Olowá (Viva Deus). As terras do suposto quilombo de Malaquia, no início do século XX, parece ter sido pertencente às terras do Zôogodô Bogum Malê Seja Hundê e fazia limitecom o Morgado do Pinho pelo Riacho Caquende; ou, o que é mais provável, pertencia às terras do Morgado do Pinho e o referido “terreiro” de candomblé utilizava, com a anuência do seu proprietário, como local onde se realizava algum dos seus ritos litúrgicos[28].
Segundo, é que a tradição oral confunde o Bitedô com o quilombo de Malaquia, ora afirmando que o suposto quilombo era no Bitedô; ora que havia uma ligação entre os dois, sem precisar a sua localização. De qualquer forma, Recuada e Malaquia têm uma relação e isso leva a conjecturar que os africanos fardados e armados de porretes, o plantar legumes ao amanhecer e colher os frutos à tarde, as insurreições escravas da Recuada, o candomblé de Malê, etc., têm algum fundamento.
  Esses dados, se estamos certos, nos leva a confirmar a participação da Irmandade da Boa Morte nas revoltas escravas baianas, principalmente na Revolta dos Malês de 1835, na qual surge a figura de Luísa Mahin, que a tradição oral revela ter sido membro da Corporação soteropolitana. Nos leva a confirmar também a existência de uma rede de comunicação dessa Irmandade com escravos de engenhos próximos da cidade, principalmente com escravos recém-chegados da África e provavelmente mantidos temporariamente nas terras de Bernardo Mendes da Costa até serem vendidos, e, deles, com os demais engenhos da zona do Iguape[29]. Além disso, demonstra ter sido a Irmandade da Boa Morte a responsável pela organização do culto afro em Cachoeira a partir da emergente elite econômica da Recuada e do grupo religioso do Bitedô, em conexão muito estreita com a Casa Estrela, localizada na rua principal, para onde acorriam africanas oriundas de várias localidades baianas que chegavam a Cachoeira.
Os Atores
Tendo demonstrado o locus onde viviam os africanos de Cachoeira, podemos agora saber como eles viviam. Queremos dizer, para começo de assunto, que embora Bitedô fosse também um agrupamento do núcleo da Recuada, em verdade era uma roça pertencente ao casal de africanos Belchior Rodrigues Moura e Maria da Motta. No registro de terras de 1858 Maria Motta registrou
Uma sorte de terras, que possuem seus filhos e tutelados, herdeiros do finado seu pai Belchior Rodrigues Moura, sita  na Capapina, suburbio desta cidade, dividindo-se pelo lado do nascente com terras do Major Antonio Ferreiro Souto, pelo lado do poente com terras do mesmo digo do menor Silvestre Gonçalves Fiusa [filho de José Antônio Fiusa da Silveira], pelo sul com a estrada da Capapina. Cachoeira 16 de agosto de 1858. O vigário Dionísio Borges de Carvalho[30].
Belchior Rodrigues Moura (e presumivelmente Maria da Motta) veio ainda jovem para a Bahia. No seu testamento, datado de 14 de agosto de 1855, ele declara que era natural da Costa da África, vindo para Salvador “ainda menor de idade” como escravo de José Rodrigues  Moura,  tendo comprado sua liberdade em 1841 pela quantia de  seiscentos mil reis[31].
O casal Belchior Rodrigues Moura fazia parte de uma rede social de africanos moradores de núcleos residenciais formados por negros libertos de Cachoeira que conseguiram projeção sócio-econômica e exercer importante papel na formalização de instituições com objetivos  políticos de preservação de ethos africano. A Recuada e Alto do Chafariz eram núcleos onde preferencialmente eles se concentravam numa relação de ajuda mútua, de sorte que dos 120 africanos encontrados no período de 1894 a 1925, quando faleceu o último africano residente em Cachoeira, apenas dois faleceram na condição de mendigo, isto é, desassistido. Também nesses núcleos vamos encontrar alguns africanos e africanas que reuniam em torno de si, como agregados, pessoas cuja relação era estritamente religiosa. Algumas mulheres eram revestidas de poder e liderança e seus nomes figuram ainda hoje como pessoas que estiveram intimamente ligadas à formação da Irmandade da Boa Morte em Cachoeira. Entre elas estavam, entre muitas outras, Júlia Guimarães Vianna, Benedicta Gonçalves Guimarães, Benedicta Pitanga da Conceição, Maria Rufina do Amor Divino, Emilia Garcia D’Aragão, Maria Joaquina da Silveira, Ludovina Pessoa, Júlia Gomes de Souza, Maria Sophia de Oliveira.
Júlia Guimarães Vianna era natural da Costa da África, onde nasceu em 1822 e faleceu em Cachoeira no dia 18 de maio de 1911. Era casada com o africano Antônio Domingues Martins, nascido na Costa da África em 1810 e falecido em Cachoeira em 1902. Esse casal de africanos era proprietário de 7 casas em Cachoeira, localizadas na Recuada (inclusive a que residia), Alto do Chafariz e uma no Caquende. Benedicta Gonçalves Guimarães (no seu testamento consta Benedicta Francisca Guimarães) era natural da Costa da África e casada com o africano Victor Bahiano, moradora no Galinheiro, na Recuada, onde faleceu em 1875. Benedicta era proprietária de três casas na Recuada, “uma roça no Pitanga, onde plantava legumes e outros gêneros que eram vendidos em sua quitanda” e quatro escravos crioulos e uma africana, todos ganhadores.
Maria Rufina e Emília D’Aragão eram igualmente naturais da Costa da África e comerciantes; a primeira vendedora de cereais e a segunda quitandeira na Rua da Matriz, embora residissem no Largo do Remédio e Curral Velho, respectivamente. Não temos conhecimento se eram casadas, embora Emília Garcia D’Aragão tivesse dois filhos, moradores no lugar Bomba, no Três Riachos, na proximidade do morro da Capapina. Maria Joaquina da Silveira foi a única que faleceu escrava  ao que parece; pelo menos é o que consta no registro de membros da Irmandade dos nagôs em que figura seu nome como escrava de Joaquim Pedro da Silveira, em 1870.
 Imagem
Residência de Belchior Rodrigues Moura e Maria Motta, pais de Zé de Brechó e Salacó
Essas africanas do partido alto moradoras da Recuada e Alto do Chafariz estiveram ligadas, juntamente com seus maridos, à construção da igreja dos nagôs, em 1842, e, em 1858, à construção da Igreja de Nossa Senhora dos Remédios, no Corta-jaca, igreja onde mais tarde sediaria a Irmandade de Nosso Senhor dos Martírios, formada por africanos jêjes. Seus filhos e afilhados na dácada de 1870 formavam uma elite social letrada com trânsito livre em diversas camadas sociais de Cachoeira e outras localidades do Recôncavo baiano, inclusive Salvador, e exerceram papel importante na organização e estruturação de terreiros de candomblé e da Irmandade da Boa Morte.
Do consórcio de Maria Motta Belchior com Belchior Rodrigues Moura, por exemplo, nasceram cinco filhos: José Maria  Belchior, conhecido como Zé de Brechó; Antônio Maria Belchior, conhecido como Salacó; Maria Aniceta Motta Belchior, Magdalena Motta Belchior e Juliana Motta Belchior.
Zé de Brechó, cujo hierônimo era Dadá Hunhó, nasceu entre 1836 a 1838. Era uma pessoa carismática e ativista político, o que o tornou uma pessoa admirada e perseguida. Algumas pessoas antigas afirmam que ele era um babalorixá que “batia candomblé palmilhado”, quer dizer, sem uso de instrumentos de percussão como é atualmente usado[32], em sua casa, no Corta-Jaca. Afirma-se inclusive que ele preparou duas pessoas que mais tarde assumiriam cargos importantes no Zôogodô Bogum Malê Seja Hundê, de Cachoeira, e no Zôogodôdô Bogum Malê Hundô, em Salvador, que foram Maria Ephifania dos Santos (Sinhá Abalha) e Emiliana Piedade, respectivamente. Dizem que ele eventualmente transformava-se em ave e voava para a África, entre outros atributos sobrenaturais que possuía. Sobre ele também existem muitos relatos sobre disputas com seu irmão Salacó, com quem “brigava amigavelmente”.
Sua vida política foi marcada por intensa atividade à frente de sociedades civis e religiosas, das quais algumas foi presidente. A sua atuação frente  a essas instituições demonstra que foi um ferrenho abolicionista
e dedicou muito esforço pela causa, levando-o a adquirir prestígio, e também ser muito perseguido, em todas as camadas sociais. Em 1876 assumiu a presidência da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário do Santíssimo Sacramento do Sagrado Coração de Maria do Monte da Rua Formosa (Irmandade dos Nagôs), atraindo para essa agremiação religiosa pessoas de prestígio da sociedade cachoeira com objetivos visivelmente políticos. O mesmo ele fez na Sociedade Montepio dos Artistas Cachoeiranos, da qual foi presidente em 1888, transformando-a numa sociedade abolicionista.
Em 1899 filia-se ao Partido Republicano e se candidata a conselheiro municipal, ficando colocado em 13º terceiro lugar, o que lhe conferiu a suplência. No jornal A Cachoeira de 29 de outubro de 1899 ele aparece incluído entre os candidatos  do Partido Republicano. No final da nota diz que “não menos digno de serem suffragados, prestado-nos iguais serviços aos enumerados acima, são os distintos cidadãos Francisco Mendes de Magalhães [que mais tarde se elegeu intendente e era pai do seu inseparável amigo e compadre, o padre Eráclio Mendes da Costa], Capitão Leonídio Pereira Mascarenhas, José Maria de Belchior e Hermillo José Gomes[33]”.
 Imagem
Configuração atual da residência de Belchior Rodrigues Moura e Maria Motta
Além de suplente de conselheiro municipal, Zé de Brechó foi Capitão da Guarda Nacional, maçom e esteve ligado à formação do Zôogodô Bogum Malê Seja Hundê. Zé de Brechó faleceu no dia 16 de abril de 1902, com 63 anos de idade[34].
Salacó, cujo hierônimo era Azoanadô (Azoano Adô) era Carapina e comerciante e esteve ligado também à fundação de sociedades civis de Cachoeira, embora não tivesse conseguido o prestígio conquistado por seu irmão Zé de Brechó. Foi igualmente presidente da Sociedade Montepio dos Artistas Cachoeiranos, da Irmandade dos Nagôs e da Irmandade de São Benedito. Parece que Salacó era mais comedido politicamente, embora seu nome apareça  na formação de algumas sociedades de classe. Como sacerdote, esteve ligado, juntamente com um babalaô africano morador de Cachoeira, cujo hierônimo era Tó Alá Bi (Talabí), à fundação do Terreiro de Oxumarê (Bessém), em Salvador, que ainda persiste. Salacó faleceu no dia 16 de janeiro de 1904.
Outro filho de africano proeminente foi Theophilo Bispo da Silveira. Theophilo era filho de Maria Joaquina da Silveira, que já mencionamos, e era proprietário de alguns imóveis, inclusive de duas roças localizadas em Capoeiruçu e Boa Vista. Era  ferreiro, onde tinha uma tenda em São Felix. Era também uma pessoa ligada a irmandades religiosas negras e ligado aos fundadores da Sociedade Montepio dos Artistas Cachoeirano, inclusive à Zé de Brechó e Salacó. Theophilo era casado com uma mulher conhecida como Fulô, moradora na Travessa Anastácio, 6, que era membro do candomblé de Tia Agda, na Rua do Sabão, da qual também fazia parte sua irmã Honorina Bispo da Silveira. Do relacionamento com Fulô nasceram três filhos, dos quais um deles – Américo Bispo da Silveira – atualmente reside no Rio de Janeiro, onde exerce a profissão de advogado. Sua mãe era irmã da Boa Morte, segundo relato pessoal na ocasião em que comemorou seus noventa anos de idade na sede da Irmandade da Boa Morte, em meados de 1995. Theophilo faleceu no dia 26 de junho de 1920, com 52 anos de idade[35].
Esses africanos e filhos de africanos constituíam uma elite social negra com trânsito livre em todas camadas da sociedade cachoeirana. Eram pessoas respeitáveis que se impunham pela dignidade e moralidade com que conduziam suas vidas; eram mulheres empreendedoras, exímias comerciantes e afeitas ao trabalho coletivo. Todas elas eram ganhadeiras: vendedoras de alimentos em áreas públicas, quitandeiras, cozinheiras, doceiras, etc. Algumas delas ligaram-se afetivamente a pessoas de posse e de sobrenome nobre e com eles geraram filhos que adquiriram seu nome e foram educados em igual condição aos filhos legítimos[36]. Embora  não fosse reconhecido legalmente, esse tipo de ralação era legitimado pelo costume, de sorte que eram clandestinos, mas ostensivos. Provavelmente tenha sido uma sobrevivência de tradições islâmicas trazidas por africanos para o Brasil que perdurou, pelo menos no Recôncavo baiano, até a década de 1960.
O acesso às camadas sociais privilegiadas certamente foi uma das estratégias pela qual foi possível a expansão e instauração da Irmandade da Boa Morte e, dela, a organização e formalização do Zôogodô Bogum Malê Seja Hundê em Cachoeira. Seguramente, o papel político exercido por filhos de africanos, como Zé de Brechó, junto às camadas políticas representativas e progressistas (no caso, os republicanos abolicionistas) de Cachoeira não teve outra finalidade. Neste sentido, podemos entender a razão por que a Irmandade da Boa Morte pode se instalar numa casa, e não em uma igreja,  na rua principal da cidade e aos olhos de todos, onde era possível a reunião de africanas e nela gestar sacerdotisas que assumiriam papel de liderança nos emergentes terreiros de candomblé de Cachoeira. Esse quartel general hoje é conhecido como Casa Estrela e ainda hoje representa um dos emblemas da Irmandade.
A Casa Estrela é uma casa localizada na Rua da Matriz, 41, que mantém ainda suas características arquitetônicas, inclusive internamente. No passeio, em frente à porta, há uma estrela em granito, daí porque é conhecida como Casa Estrela. Porém, duas casas após à que estamos nos referindo há um sobrado anteriormente propriedade de um tal Arlindo Estrela. Arlindo Estrela era oriundo de uma família abastada de Cachoeira  e na década de 1930 era proprietário de uma porção de terras que ocupava uma grande área do espaço urbano, que iniciava na margem do Riacho Pitanga (na imediação do atual Colégio Estadual de Cachoeira), no bairro do mesmo nome, e confinava na atual Rua Benjamim Constant, na citada Ladeira que sobe para Belém. Além dessa porção de terras, era herdeiro de um solar localizado na Rua Ana Nery, 1, denominado Solar dos Estrelas.
Portanto, é possível que a estrela assentada na entrada da casa seja uma insígnia que demarcava uma propriedade de Arlindo. No entanto, o senhor Manoel Eugênio Machado, conhecido como Mestre Machado, nos informou, antes do seu falecimento na década de 1990, que aquela estrela representava um Exu assentado por Ludovina Pessoa, pessoa que vamos conhecer ainda.
Em 1893 residia nessa casa uma senhora chamada Julia Gomes, pessoa a quem se atribui ter sido a fundadora da Irmandade da Boa Morte de Cachoeira. No livro de lançamento da receita de imposto municipal de indústrias e profissões dos anos de 1893-1894, das treze  quitandas relacionadas na então Rua da Matriz (atualmente Rua Ana Nery), consta os nomes de Maria Aniceta Belchior, filha de Belchior Rodrigues Moura e Maria Motta e irmã da Boa Morte, Carolina Isabel de São João,  Josepha Maria da Conceição, Júlia Guimarães Vianna,  Militana Maria da Conceição e Antônia Maria Bacellar, todas essas quitandas localizadas vizinhas à Casa Estrela, o que confirma que havia um grupo de mulheres economicamente estáveis que se organizava através de uma rede de solidariedade e trabalho e também com propósito político e religioso. Em 1970 ainda persistia nessa casa um grupo de mulheres negras, que confeccionavam doces e bolos variados, vendidos em tabuleiro em vários cantos de Cachoeira e cidades circunvizinhas, ou produziam sob encomendas para festas realizadas pela elite local. Eram dezenas de ganhadeiras que sobreviviam em torno dessa atividade comercial, todas elas pertencentes à Irmandade da Boa Morte. Em 1940, Severina Moreira, antiga irmã da Boa Morte e prima de Dona Edwirgens (gamo de Oxum do candomblé de Ventura, irmã da Boa Morte e residente na casa número 43 na Rua da Matriz, ou seja vizinha, à Casa Estrela) mantinha sua família com a atividade de doceira na Casa Estrela. Além dela, trabalhavam ainda três irmãs biológicas (Bahia, que também era irmã da Boa Morte, Tonha e Joana Moreira) e uma filha pequena, Cassimira Moreira, atualmente irmã da Boa Morte.
A tradição oral revela que na Casa Estrela eram preparadas as vodunsis do grupo religioso do Bitedô e, mais tarde, as que foram preparadas por Ludovina Pessoa para o Zôogodô Bogum Malê Seja Hundê. Além disso, dessa casa mantinha-se intercâmbio com a África através de viajantes cachoeiranos ou então através de informações vindas de Salvador. Até a década de 1960 a Casa Estrela, além de ser uma residência onde reuniam o povo-de-santo de Cachoeira, era onde se comprava produtos africanos utilizados em rituais de iniciação do candomblé, como sabão da costa, orobô, efum, etc. Quanto ao vínculo dessa casa com a Irmandade da Boa Morte é inquestionável, assim como com o Zôogodô Bogum Malê Seja Hundê, haja vista o vínculo dos seus membros antigos com esse candomblé, inclusive Julia Gomes de Souza e suas três filhas.
A Irmandade da Boa Morte e a formação do Zôogodô Bogum Malê Seja Hundê
Não existe um acordo quanto a origem do Zôogodô Bogum Malê Seja Hundê. A data de sua fundação também não é definida com precisão. As fontes de informação acerca da origem desse “terreiro” são seus membros antigos e as versões variam de um para outro. Uma delas diz que ele é oriundo do Bitedô. Outra versão diz que ele é oriundo de uma associação de Zé de Brechó com uma africana chamada Ludovina Pessoa. A versão do antropólogo Luís Nicolau Parés é de que o terreiro seria oriundo de uma associação entre Tixareme e Ludovina com posterior associação de Brechó. A nossa versão é de que o Zôogodô Bogum Malê Seja Hundê resulta da formalização do culto do Bitedô, que por volta de 1890 definitivamente se instala numa fazenda recentemente comprada por Zé de Brechó, surgindo em seguida a figura de Ludovina Pessoa.
Evidentemente não existe registro documental acerca do culto do Bitedô e a tradição oral  registra pouca coisa. Apenas que era liderado por um africano conhecido como Quixareme, ou Tixareme e ainda Tio Xareme, um arquifono consagrado a Azonsu, cujo nome era Dandagoroji[37]. Fala-se também que os ritos eram realizados no mês de outubro. Ogan Boboso diz também que ele foi escravo de Jacomim Vaccarezza, o que é possível. É provável também que ele tenha sido  foreiro ou escravo de José Antônio Fiusa da Silveira. Pensamos que Tixareme foi o iniciador de Zé de Brechó e demais membros de sua família biológica.
Devemos levar em consideração, entretanto,  que Zé de Brechó era proprietário, juntamente com Salacó, seu irmão, das terras do Bitedô, adquiridas por herança de seu pai. No início dos anos 1880, quando Zé de Brechó adquire as terras da fazenda Altamira por compra feita a Gonsalo Martins de Oliveira e sua mulher Amália de Oliveira, onde seria organizado o Seja Hundê, o nome de Quixareme ou Tixareme reaparece como um dos nomes da fazenda altamira, denominado sítio Charene (Chareme), que é, evidentemente, uma referência ao Quixareme, ou Tixareme, ou Tio Xareme, ou, grosseiramente (sí) tio Xareme[38]. Isso nos leva a pensar que Tixareme por volta de 1870, quando foram construídos um túnel e um viaduto ferroviário sobre as terras do Bitedô, se transferiu para essa fazenda, levando Zé de Brechó a comprá-la e mantê-lo como morador, dando continuidade ao culto, agora estruturado como um ‘terreiro”.
Isso confirma a contestação de que Zé de Brechó não era um babalorixá, embora figurem pessoas importantes como suas filhas de santo, como Sinhá Abalha e Maria Romana, e sim que era um olowô, isto é, um sacerdote de Ifá (na hierarquia dos sacerdotes de Ifá são três graus: babalaô, Olowô e arabá) e ao mesmo tempo um dignitário, um benemérito idealista com forte consciência de pertencimento étnico-cultural, que se valia de seu poder político e prestígio social para viabilizar a organização e estruturação do candomblé em Cachoeira.
Em torno dele reunia-se, além de Tixareme, a africana Ludovina Pessoa e um grupo de vodunsis, ogans e ekedes provenientes de “terreiros”  de candomblé de Salvador por ela organizados, ou da sua íntima relação, e de Cachoeira, que foram “preparadas” na Casa Estrela desde o tempo do Bitedô e que agora faziam parte do novo “terreiro”. Ludovina Pessoa, no entanto, pertencia à “nação” jêje marrim, enquanto que Zé de Brechó, segundo a tradição oral, era nagô  e Tixareme, Savalu, considerando que o vodum ao qual ele cultuava – Azonsu – ser oriundo dessa cidade da atual República Popular do Benin (ex-Dahomé).
Três grupos étnicos em torno da formalização de um “terreiro” evidentemente geraram controvérsias interpretativas, principalmente porque no início do século XX ele se transferiu da fazenda Altamira, que passaremos a chamar de Roça de Cima, para uma roça, a ela contígua, uma baixada, denominada Roça de Ventura, onde se encontra atualmente. Acredita-se que inicialmente o candomblé da Roça de Cima era de “nação” Savalu, ou seja, cultuava-se a Azonsu unicamente.[39] Aliás, uma jaqueira localizada no início da Roça de Ventura, consagrada a Azonsu Dandagorojí, demarca o limite entre as duas propriedades. Outra versão diz que o candomblé iniciou jêje marrim e que Ludovina Pessoa era a doné (a iyalorixá, digamos) e Tixareme o seu imediato colaborador, no caso, o pejigã. Tudo conjectura, mas deve-se observar que na Roça de Ventura o abaçá, a casa onde estão guardados os fundamentos e onde ocorrem as festas públicas, é consagrada a Azonsu.
Fica também a dúvida – também discutida por Parés – das razões da transferência do “terreiro’ da Roça de Cima para a Roça de Ventura. Fala-se de desentendimentos, o que não é provável porque a tradição oral revela que em algum momento os dois “terreiros” funcionaram juntos e que o Boitá era feito na Roça de Cima e descia para a Roça de Ventura, etc. Parece que houve uma transferência acordada e programada. Mais uma vez Zé de Brechó, valendo-se de seu prestígio, viabilizou, juntamente com o filho de um rico industrial português naturalizado brasileiro chamado Albino José Milhazes Filho, a compra das terras de Ventura, cedendo para a implantação do candomblé. Depois, enquanto não se concluía a transferência dos fundamentos, os ritos da Roça de Cima se estendia para o futuro espaço sagrado.
Desde a sua fundação, os membros do Zôogodô Bogum Malê Seja Hundê eram, em sua maioria, irmãs da Boa Morte.  Fala-se inclusive que Ludovina Pessoa era uma delas. A primeira Doné desse “terreiro” foi Maria Luísa Sacramento, cujo hierônimo era Ogorinsi Missimi. Provavelmente Maria Luísa Sacramento era irmã da Boa Morte. Era natural de Nagé, distrito de  Maragogipe. Certamente ela foi escrava ou filha de escrava de algum engenho pertencente ao clã Nascimento/Natividade Tosta, proprietário das terras do Outeiro Redondo, em São Felix. É provável também que a sua família tenha sido membro de um antigo “terreiro” de candomblé jêje Dahoméa que ainda persiste em Nagé, distrito de Maragogipe mas vizinho ao Outeiro Redondo, cujas terras também pertenciam à mencionada clã  Nascimento/Natividade Tosta. A segunda chamava-se Maria Ephifania dos Santos, também conhecida como Sinhá Abalhe, cujo hierônimo era Ogorinsi Lufame.
Não levando em consideração a parte obscura ou especulativa da história do Zôogodô Bogum Malê Seja Hundê, que é aquela anterior às investiduras como líderes de Ogorinsi Missimi e Ogorinsi Lufame, os membros da Irmandade da Boa Morte eram igualmente membros desse “terreiro”. Pelo menos era a maioria. Outros membros eram oriundos de candomblés cujos pais ou mães-de-santo provavelmente tiveram alguma ligação com o agrupamento do Bitedô, que é o mesmo que dizer que tiveram alguma ligação com o Seja Hundê.
Luíza Franquelina da Rocha, 94 anos, gaiaku do Humpame Ayono Humtó Lojí e filha biológica de Miguel Rodrigues da Rocha, pejigã da Roça de Ventura e filho de santo de Ogorinsi Missimi, num recente depoimento gravado em vídeo relacionou alguns membros da irmandade da Boa Morte indicando sua filiação religiosa. Ela diz que as antigas irmãs da Boa Morte eram da Roça de Ventura, de Miguel Pequeno (L’Oba Nekun), Zé do Vapor (Ilê Eran Opê Olowá), Judite (Ilê Ici Mimó), de Macambira, citando apenas os de Cachoeira. Ora, Miguel Pequeno era filho de santo de um babalorixá antigo chamado Coxo, que morava na Recuada. Coxo, pelo que se sabe, era filho de santo do africano Tio Fadô, falecido com mais de 100 anos na década de 1920, também morador da Recuada, onde tinha um candomblé no inicio da Rua do Galinheiro[40]. Esses terreiros de candomblé foram fundados, como o Seja Hundê, logo após a abolição  e tem sua origem de babalorixás e iyalorixás moradores da Recuada, provavelmente da relação do agrupamento do Bitedô, ou seja, parece que originaram de Tixareme, Tio Fadô, Tia Agda, Chiquinho de Babá, Zé de Brechó, Salacó e outros que caíram no esquecimento.
Nesse tempo candomblé era uma sociedade secreta e temida. Gaiaku Luíza relembra que na sua mocidade uma pessoa assumir a condição de macumbeiro era assumir um estigma social. Em contrapartida havia entre eles uma relação de cumplicidade. Com efeito, as obrigações realizadas por um “terreiro” eram compartilhadas pelo demais; havia apoio, facilitações, trocas de experiências e saberes, formando assim uma rede solidariedade. Boboso e Gaiaku Luíza afirmam que os membros da Roça de Ventura iam às festa da casa de Anacleto, em São Felix, e de outros “terreiros” e, na chegada, eram recebidos solenemente com músicas de fundamento. Os visitantes cantavam à porta pedindo licença para entrar na casa (agô mean, xocotô…), o que eram convidados também com música. Eram todos parentes!  A Irmandade da Boa Morte, por sua vez, era um agrupamento feminino de membros desses “terreiros” em torno da devoção de Maria no drama de sua morte e ascensão ao céu. Era uma síntese da solidariedade de macumbeiras de Cachoeira, São Felix, Muritiba, São Gonçalo dos Campos, Feira de Santana, Maragogipe…que se visitavam, trocavam experiências, saberes, e que eram parentes, no sentido de iguais, e iguais em estigma social.

[1] . Reis, João José. Recôncavo Rebelde: revoltas Escravas nos engenhos Baianos. In Afro-Ásia…
[2] . Reis, Op. cit. P. 100.
[3] . Sobre revoltas escravas no Recôncavo baiano, ver especialmente Reis, João José. Recôncavo Rebelde: Revoltas Escravas nos Engenhos Baianos. In: Afro-Ásia…
[4] . Reis, João José. Op. cit. P. 101.
[5] . APMC. Recenseamentos, documentos avulsos não catalogados.
[6] . Arquivo Público Municipal de Cachoeira, recenseamentos, documentos avulsos, sem códice. Os números apresentados pelo mencionado recenseamento são parciais. O documento em referência encontra-se danificado e com ausência de páginas. Estima-se, no entanto,  que a população urbana de Cachoeira na época gravitava em torno de 6 mil  habitantes.
[7] Para Cachoeira convergiam muitas pessoas, principalmente ex-escravos devido a sua condição de segundo porto mais importante da Bahia colonial e também atraídos pela implantação de fábricas de cigarros e charutos de capital alemão, e construção da ferrovia, em 1860.
[8] . Arquivo Público Municipal de Cachoeira. Livro de registro de matrícula de ganhadores que exercem a profissão em Cachoeira e São Felix, 1888-1891, sem códice. Os seis africanos registrados eram: Germano Barroso, 55 anos, morador do Curral Velho; Germano Mendes da Costa, 66 anos, Ussá, morador do Alto do Chafariz; Tibério Rodrigues Pereira, 65 anos, morador do Alto do Chafariz; Antônio Cícero, 55 anos, morador do Largo dos Remédios; Zacharias Pacheco de Miranda, 55 anos, morador da Rua da Feira e José Jorge Gordilho, 70 anos, morador da Rua do Sabão (atualmente Rua Antônio Carlos Trindade Melo).
[9] . A escolha do ano de 1894 deveu-se ao fato de o livro de óbito mais antigo existente no Fórum  de Cachoeira ser datado dessa época. A segunda etapa da pesquisa consistiu em identificar laços de consaguineidade ou simbólicos entre o declarante do óbito e o falecido, o que nos fez estender a pesquisa até 1970. Isso permitiu identificar um número duplamente maior de indivíduos ligados a esses últimos africanos, como filhos, sobrinhos, netos, afilhados, compadres, dos quais alguns são atualmente membros,  com função hierárquica relevante, dos mais antigos e tradicionais terreiros de Candomblé de Cachoeira.
[10] .  Neste sentido, o conceito de minoria/maioria não deve ser entendido em termos quantitativos.
[11] . José Antonio Fiusa da Silveira faleceu em 1856, de Cólera Morbus. No Livro de registro de terra de Cachoeira, datado de 1858, suas  propriedades foram registradas por sua mulher, Theresa de Jesus Penha, tutelada de seus filhos Silvestre Gonçalves Fiusa da Silveira e Maria Josefa Fiusa. APEBa. Livro de Registro de Terras. Cachoeira. 1858-1860. Viação e Obras Públicas, maço, 4677.
[12] . Rossio, era a zona agrícola contígua à zona urbana. Alguns documentos referem-se a petições de Fiusa para a Câmara. Um deles diz que “José Antonio Fiusa Silveira, proprietário dos terrenos místicos [vizinhos] a Igreja Nova denominada Capella do Rosario, no alto detras do antigo curral [Curral Velho, hoje Praça Marechal Deodoro] que indas se achão aqueles terrenos sem [incompreensível] alinhamento para os assentamentos e como já tinha o supplicante adquirido pessoas que quisessem edificar suas propriedades  nos mencionados terrenos não podendo o supplicante dar arrendamentos sem que V.V.S.S. vim ao indicado lugar juntamente o pedreiro desta Camara para fazer o mencionado arruamento tanto para aformosiação desta cidade como para sentença publica e do supplicante que espera lhe marquem hora para o fim requerido. Cachoeira, 15 de agosto de 1853”.  Arquivo Público Municipal de Cachoeira, documentos avulsos, sem códice.
[13] Gaspar Rodrigues Adorno, Álvaro Rodrigues Adorno e Rodrigo Martins Adorno eram irmãos, netos de Caramuru pelo lado materno e sobrinhos de Paulo Dias Adorno. Foram eles os conquistadores de Cachoeira.

[14]. Arquivo Público Municipal de Cachoeira. Inventários 1775  – Cachoeira, sem códice. Margarida Rodrigues Adorno era natural da freguesia de Nossa Senhora do Rosário do Porto da Cachoeira, foi batizada na capela  de Nossa Senhora da Conceição no Pé de Serra, filha natural do sargento-mor Álvaro Rodrigues Adorno e Fellipa Álvares, casada em primeiras núpcias com Manoel Zuzarte de Brito, com quem teve um filho, falecido criança. Depois se casou com Manuel Nunes Guerra. No seu testamento declarou que  possuía apenas uma casa de taipa junto ao hospital da vila, em terras foreiras ao sargento-mor José Gonçalves Fiusa [garimpeiro] e os escravos Cosme, crioulo; João, Francisco, Anna, Maria, crioulos; Bárbara Mina (já velha), Joanna, Apolinária, crioulinha. Era tia de Antonia Cavalcante Castro e Maria do Espírito Santo, filhas de sua irmã Iria Rodrigues. Era comadre de Pedro Correia e irmã das Irmandades da Ordem Terceira do Carmo e do Rosário.

[15] . Em 1724 residia em Cachoeira um português chamado João de Lima Fiúza, natural dessa localidade.
[16] . Beatriz era filha do Sargento-mor Pedro Araujo do Vale e Ana Beatriz do Lago. José Gonçalves Fiúza se casou em primeiras núpcias com Jorônima Clara de Almeida, filha de Bartolomeu da Costa e Antônia de Almeida. Era irmã  do Dr. Luís da Costa de Almeida e do Cap. Jerônimo da Costa de Almeida. Os filhos de José Fiúza com Beatriz foram: Jerônimo Luís Gonçalves Fiúza de Almeida e José Antônio Fiúza de Almeida. O segundo casamento de José Gonçalves foi com Florinda Inácia de Araujo de Aragão, proprietária do engenho da Ponta, no Iguape, com quem não teve filhos. Cf. Livro de irmãos da Ordem Terceira do Carmo de Cachoeira, século XVIII. APEBA. Cachoeira, Seção Judiciário. Inventários. 7/3112/0/14 – 1799. Agradeço à Senhora Lígia  …pelas referências. Sobre Antônio José Fiusa da Silveira, cf. APEBA, Seção Judiciário. Inventários – 1881. 2/593/1046/1c.
[17] . APEBa, Seção Judiciário. Inventários – 1881.  2/593/1046/1c. Num livro de registro de terras de Cachoeira – 1858, a maior parte das terras urbanas de Cachoeira pertenciam a Antônio José Fiusa da Silveira, principalmente na parte que compreende o Pasto, Pitanga, Capoeiruçu (Capapina) e Faleira. A Faleira fica localizada entre a Lagoa Encantada e o Bitedô e Boa Vista (Capoeiruçu). Essas terras limitava-se com as que antes pertenciam ao engenho Pitanga e nela estavam incluídas as terras do Bitedô.
[18] . A Ponte Velha foi construída sobre o rio Pitanga no final do século XVIII e demarcava a zona do rossio à vila. No processo de expansão  Cachoeira, que aconteceu com maior intensidade no início do século XIX, o traçado urbano acompanhou o seu alinhamento.
[19] . Jacomim vaccarezza é oriundo de uma tradicional família italiana, natural de Gênova, que  radicou para Cachoeira em 1850, instalando-se com moinho, serraria e fábrica de caixas, que eram vendidas para a fábrica de fumos Dannemann, em São Felix. A família Vaccarezza ainda persiste em Cachoeira e conserva a antiga residência no bairro Pitanga. Segundo pesquisa genealógica realizada por membros dessa família, que se encontra em andamento,  o sobrenome Vaccarezza aparece na história de Gênova em 1380 referindo-se a uma nobre família que remonta a Ostiano Barsi di Vacarrezza. Um deles tomou parte do Conselho dos Oito Nobres que governavam a República em conjunto com o “Dux” (condutor, guia, como eram designados na Idade Média e início da Renascença), participando também de expedições no Oriente comandando seu próprio navio. No século XV,  três Vaccarezza – Emmanuelle, Alessandro e Benício di Vazzarezza – representavam a Itália como embaixadores na Europa.  Outros estabelecerma-se em Chiavair, na Riviera Oriental, na antiga República de Gênova, mais precisamente no povoado de São Bartolomeu, onde exerciam funções liberais.  Em 1848 Andres Vaccarezza, vindo de Gênova, teria chegado ao Porto de Buenos Ayres no período de Rosas, colonizando os pampas no sentido das fronteiras, tendo constuído a 189 km de Buenos Ayres um povoado ao redor de um moinho de farinha, estimulando a pecuária e a agricultura, o que foi seguido por outros colonizadores, seus parentes.  Em uma entrevista, em 1987, com a Senhora Marietta Vaccarezza Muniz Barretto, neta de Jacomim, ela nos declarou que as terras pertencentes a José Joaquim d’Oliveira foram posteriormente compradas por Jacomim, desfazendo-se de parte delas. No dia 18 de julho de 1896,  Franklin Telles de Menezes comprou a Maria José d’Oliveira uma roça situada à ladeira que desta cidade e lugar do cemitério segue para Belém, com uma casa e seus terrenos, pela quantia de 1:200$000. “tendo 122 braças de terras de frente, que se divide pelo morro Pitanga [Bitedô] fronteiro ao riacho do mesmo nome e 69 braças de fundo, limitando-se com o  poente, tendo 105,5 braças de fundo, limitando-se com a supra dita ladeira”. Cartório de Notas e Ofícios do Fórum Teixeira de Freitas de Cachoeira, livro de 1896. Manoel Vasconcellos de Souza Bahiana era casado com Maria Agostinha de Berenguer Bittencourt. Na sua propriedade funcionavam fábricas de rapé, cola, pólvora e madeira, além de possuir várias propriedades em Cachoeira e outras localidades baianas, inclusive Itaparica. Após seu falecimento, a fazenda Pitanga foi vendida para Izidro Lobo, cujos descendentes são os atuais proprietários do imóvel.
[20] . Ogam Boboso, 1987. Sr. Aurelino, 1989. Gaiaku Luíza, 2000.
[21] . Em dezembro de 2003, durante uma visita que fizemos ao Sr. Boboso,  retornamos às velhas conversas sobre o Bitedô, quando ele me confidenciou que antes de morrer quer passear no Cisqueiro,  que é uma gleba de terras da antiga Fazenda Dendê, entre o Bitedô e a Capapina e onde está assentado o cemitério da Piedade, porque ali tem muita coisa boa enterrada.
[22] . Arquivo Público do Estado da Bahia. Ofícios. Seção Judiciário. Cx. 932 – 1853, c. 2277, vários documentos. “Inclusa remetemos a V. Exª a relação das pessoas prejudicadas pelo incêndio da recuada n’esta cidade, e que foi distribuído em socorro pecuniário concedido pelo governo Imperial. Dificuldade de conhecermos o valor aproximado de cada uma das cazas, assentamos [acertamos?]  de dar o mesmo a todos, por que ellas erao similares e assim fez-se a distribuiça.. Acompanham tão bem a estas 51 reclamações que nos foram dirigidas por aquelles a quem pertencião as casas incendiadas em nº de 58. O outro membro da comissão o Verº Vigário da Fregª desta cidade acha-se n’esta capital e por isso deixou de assinar o presente…Cachoeira, 29 de setembro de 1853. Innocencio Marques de Araújo Góes e Lopes Moncorvo”. 
[23] . Livro de Ofícios do Presidente da Província à Câmara de Cachoeira. 1850-1860. APMC, documentos avulsos não catalogados.
[24] .  Esta informação me foi prestada pelo historiador Walter Fraga, a quem agradeço pela referência.
[25] . Essa demarcação refere-se à registrada no Livro de Registro de Terras de Cachoeira, de 1858.
[26] . Atualmente essa zona transitória de Cachoeira está ligada à cidade por ruas pavimentadas ou por estrada de rodagem que reduz a distância, como é o caso do antigo Engenho Rosário, que está a 4 km de distância. O antigo Engenho do Navarro é o atual bairro do Tororó, ligado ao centro da cidade pela rua Faceira. O Morgado do Pinho atualmente é uma extensão da Ladeira do Caquende, que se liga ao Povoado de Quebra Bunda, na terra Vermelha, onde estão localizados os Engenhos Guaíba e Conceição.
[27] . Sobre revoltas escravas no Recôncavo baiano, cf. Reis, J. J. Recôncavo Rebelde…
[28] . Um dos espaços antigamente sacralizado pelo referido candomblé era um poço – poço da mãe d’água, ou poço de Iemanjá -, cujo acesso se dá pelo bairro do Caquende. Nesse local encontram-se alicerces da Casa Grande e outras construções do antigo morgadio.
[29] . Em uma entrevista para um documentário da TVE, ogan Bernardino, o mais velho membro do Zôogodô Bogum Malê Seja Hundê, respondendo uma pergunta sobre os fundadores do referido candomblé declarou que eram os escravos da ladeira do Padre Inácio, ou seja dessa localidade a que estamos nos referindo, associando José Maria de Belchior, que conheceremos oportunamente, a um conde africano como um dos fundadores e morador dessa localidade.
[30] APEBa, Livro de Registro de Terras de Cachoeira, 1858. Seção viação e Obras Públicas, maço 4677. Registro nº 66.
[31] . APEBa. Seção Judiciário. Inventários. Testamento de Belchior Rodrigues Moura. 02./606/1056/10. “…Declaro que sou natural da costa da África, vindo [desembarcado] para esta capital ainda menor de idade, como escravo fui comprado em lote pelo sr. José Rodrigues de Moura, de cujo poder me libertei pela quantia de seis centos mil reis, na data do primeiro de fevereiro de 1841…”
[32] . Sr.Aurelino Moreira, antigo ogam de Cachoeira, falecido com 92 anos em 1991,  nos informou “que as obrigações de candomblé eram feitas discretamente em salas de visita de residências particulares com a presença apenas de pessoas envolvidas,  geralmente familiares, e poucos convidados”. Segundo esse informante, “o grosso acontecia no pejí, no quarto do santo, ou no atim, árvore sagrada, no quintal. Era depois da realização desse rito que se fazia uma confraternização através de cânticos sagrados, culminando com a vinda do vodum homenageado, que saudava os presentes e dançava”. Nos informou também que “algumas obrigações eram feitas no mato, numa grota, num buraco, onde reuniam-se várias pessoas para fazerem obrigação”. Parece ser esse o caso do grupo religioso do Bitedô. Entrevista 1. 1989.
[33] . A Cachoeira, edição de 29 de outubro de 1899. Os candidatos republicanos eram: Aristides Milton, Tenente-Coronel Veríssimo Antonio de Farias, Tabelião Jerônymo José Albernaz, Major Severo Joaquim Ferreira, Dr. Candido Elpídio Vaccarezza, Tenente-Coronel Manoel do Nascimento Souza Brasil, Capitão João Pedreira Lapa, e Capitão Álvaro de Souza Brandão.
[34] .  . O jornal A Cachoeira, edição de 1º de maio de 1902, página 2, publicou uma nota intitulada “A Pedido”, com o seguinte teor:
Antônio Maria , sua mãe e mais parentes do Capitão José Maria de Belchior, falecido nesta cidade no dia 16 deste mez, vem de publico manifestar sua não esquecida gratidão ás pessoas amigas e conhecidas que durante a moléstia o iam visitar e suavisarem os soffrimentos de seu saudoso parente, não o abandonando nunca, e depois da morte formando numeroso cortejo o conduziram até á ultima morada.
Torna-se preciso que em toda extensão de seu reconhecimento não deixou de especializar amigos e desinteressados que deram as melhores provas de sentimento e correcção cavalheirosa. A estes que nãomencionar os nomes podem perdão da offensa  que vão fazer a sua modéstia, porque assim manda o dever, os que são: o ver. Vigário Heráclio Mendes da Costa; ao Conselho Municipal d’esta cidade, do qual o finado fazia parte; ás distinctas sociedades que depositaram coroas com inscrição em homenagem – Montepio dos Artistas Cachoeiranos, Beneficcia Cachoeirana e Centro Operário. Ás philarmonicas Minerva e União das Artes que  compareceram executando musica fúnebres, das quais o finado era sócio. Aos amigos cavalheiros e amigo do finado os Exmº Snrs Drs Emiliano e Joaquim Viegas, residentes na Bahia, Joaquim Correia da Silveira e Souza e Pedro Alexandrino Belmiro que offertaram especiais coroas..APRC. Jornais.Maria Aniceta Belchior foi a única que se casou, tendo um filho chamado Juvenal  de Souza Castro (seu esposo chamava-se Cláudio de Souza Castro e era procurador municipal), falecido no dia 2 de setembro de 1921[34]. Não temos notícia do falecimento de Aniceta e Magdalena. Salacó faleceu no dia 14 de janeiro de 1904, com 65 anos de idade, e Juliana no dia 15 de maio de 1943, com 100 anos. Após o falecimento de Belchior Rodrigues Moura, em setembro de 1855, Maria Motta teve dois filhos de outra relação: Maria Ephifania Motta, que era iyalorixá e irmã da Boa Morte, e Victor da Motta.
[35] . Cartório de Registro Civil do Fórum Teixeira de Freitas – Cachoeira, livro 22 C, p. 150, registro nº 404, de se lê: “Cassimiro Bispo da Silveira registrou o falecimento de seu tio Theophilo Bispo da Silveira, 52 anos, filho de Maria Joaquina da Silveira, solteiro, artista, residente na Rua Maciel [Recuada], sepultado no cemitério do Rosário [de Africanos]”.
[36] . Um caso exemplar é um relato da professora Julieta Onofre, membro de uma antiga família de profissionais liberais de Cachoeira. Ela nos revelou que seu pai foi amasiado com uma mulher que residia na Casa Estrela e com ela teve um filho. Segundo ela, seu irmão bastardo tinha o seu sobrenome, estudava na mesma escola, era reconhecido como parente consangüíneo, transitava normalmente no sobrado. Nos dias de sábado, seu pai trazia as compras feitas na feira livre e sua mãe se incumbia de dividir as partes que ficariam em casa e a que deveria ser enviada para a amásia do seu marido. Ela nos informou ainda que elas eram vizinhas e confidentes.
[37] . Em entrevista realizada com ogan Boboso (Ambrósio Bispo Conceição) em 2000, ele pronuncia três nomes que podem ser Garagongoji, Dangoroji, Dandagoji. Para uma discussão sobre o tema, cf. Parés, Luiz Nicolau. Do Lado do Jêje – história, ritual e vodum na Bahia. Obra inédita. O termo arquifono é uma expressão usada pelo ogan Boboso para significar o grau hierárquico de Tixareme. Dofono é uma expressão usada para significar o primeiro a ser ou que foi iniciado. Arquifono seria, então, o que está acima do primeiro.
[38] . O referido documento foi achado por Luís Nicolau Parés e é analisado em sua obra já citada..
[39] . Boboso diz que a Roça de cima era de Ogum Nagopé e Azonsu.
[40] . Ogan Boboso, 1989. Segundo Boboso, até 1960 ainda existia um pé de gameleira ao lado de sua casa, que foi derrubada na gestão do prefeito Julião Gomes dos Santos durante a pavimentação da rua.
Oi amigos…
Recebi e estou fixando esta ideia em meu blog.

CLIK EM www.dominiopubico.gov.br e procure pelos titulos abaixo. É uma biblioteca virtual do Governo Federal que estava sendo ameaçada de fechamento por falta de acessos.

Eu Mulher Negra Resisto-Alzira Rufino
Dom Casmurro -Machado de Assis
A Cartomante -Machado de Assis
A Carteira -Machado de Assis
Dom Casmurro -Machado de Assis
A Igreja do Diabo -Machado de Assis
Macbeth -William Shakespeare
A Carta de Pero Vaz de Caminha -Pero Vaz de Caminha
Memórias Póstumas de Brás Cubas -Machado de Assis
A Mão e a Luva -Machado de Assis
Arte Poética -Aristóteles
Antônio e Cleópatra -William Shakespeare
A Cartomante -Machado de Assis
A Causa Secreta -Machado de Assis
A Ela -Machado de Assis
Dom Casmurro -Machado de Assis
Adão e Eva -Machado de Assis
A Moreninha -Joaquim Manuel de Macedo
A Chinela Turca -Machado de Assis
A Mão e a Luva -Machado de Assis
Ricardo III -William Shakespeare
O Alienista -Machado de Assis
A Carteira -Machado de Assis
A Escrava Isaura -Bernardo Guimarães
Memórias Póstumas de Brás Cubas -Machado de Assis
A Mensageira das Violetas -Florbela Espanca
Os Maias -José Maria Eça de Queirós
O Guarani -José de Alencar
A Mulher de Preto -Machado de Assis
A Pianista -Machado de Assis
A Igreja do Diabo -Machado de Assis
A Herança -Machado de Assis
A chave -Machado de Assis
Quincas Borba -Machado de Assis
A Segunda Vida -Machado de Assis
O Alienista -Machado de Assis
A Vida Eterna -Machado de Assis
A Causa Secreta -Machado de Assis
Astúcias de Marido -Machado de Assis
Memórias Póstumas de Brás Cubas -Machado de Assis
A Mão e a Luva -Machado de Assis
Aurora sem Dia -Machado de Assis
O Abolicionismo -Joaquim Nabuco
Pai Contra Mãe -Machado de Assis
O Cortiço -Aluísio de Azevedo
Adão e Eva -Machado de Assis
Os Sertões -Euclides da Cunha
Esaú e Jacó -Machado de Assis
Antes que Cases -Machado de Assis
A melhor das noivas -Machado de Assis
O Cortiço -Aluísio de Azevedo
Helena -Machado de Assis
A Sereníssima República -Machado de Assis
Anedota Pecuniária -Machado de Assis
A Semana -Machado de Assis
A viúva Sobral -Machado de Assis
O Navio Negreiro -Antônio Frederico de Castro Alves
Catálogo de Publicações da Biblioteca Nacional -Fundação Biblioteca Nacional
Papéis Avulsos -Machado de Assis
Anedota do Cabriolet -Machado de Assis
Canção do Exílio -Antônio Gonçalves Dias
A Desejada das Gentes -Machado de Assis
Almas Agradecidas -Machado de Assis
Contos Fluminenses -Machado de Assis
Quincas Borba -Machado de Assis
A Mulher de Preto -Machado de Assis
Balas de Estalo -Machado de Assis
A Senhora do Galvão -Machado de Assis
A Inglezinha Barcelos -Machado de Assis
Capítulos de História Colonial (1500-1800) -João Capistrano de Abreu
A Parasita Azul -Machado de Assis
Missa do Galo -Machado de Assis
Espumas Flutuantes -Antônio Frederico de Castro Alves
História da Literatura Brasileira: Fatores da Literatura Brasileira -Sílvio Romero
O Espelho -Machado de Assis
Helena -Machado de Assis
As Academias de Sião -Machado de Assis
Antes da Missa -Machado de Assis
A Alma Encantadora das Ruas -João do Rio
A Carta -Pero Vaz de Caminha
A mulher Pálida -Machado de Assis
Americanas -Machado de Assis
Conto de Escola -Machado de Assis
Memorial de Aires -Machado de Assis
A última receita -Machado de Assis
O Alienista -Machado de Assis
Esaú e Jacó -Machado de Assis
A mágoa do Infeliz Cosme -Machado de Assis
Confissões de uma Viúva -Machado de Assis
As Bodas de Luís Duarte -Machado de Assis
O Navio Negreiro -Antônio Frederico de Castro Alves
Cinco Mulheres -Machado de Assis
O Dicionário -Machado de Assis
A idéia do Ezequiel Maia -Machado de Assis
Ayres e Vergueiro -Machado de Assis
A Campanha Abolicionista -José Carlos do Patrocínio
Noite de Almirante -Machado de Assis
Casa Velha -Machado de Assis
O Enfermeiro -Machado de Assis
Confissões de uma Viúva Moça -Machado de Assis
As Religiões no Rio -João do Rio
Várias Histórias -Machado de Assis
. Bons Dias -Machado de Assis
A Escrava Isaura -Bernardo Guimarães
. As Forças Caudinas -Machado de Assis
Balas de Estalo -Machado de Assis
Uns Braços -Machado de Assis
Bom Crioulo -Adolfo Ferreira Caminha
Antes da Rocha Tapéia -Machado de Assis
Histórias da Meia-Noite -Machado de Assis
O Mulato -Aluísio de Azevedo
O Primo Basílio -José Maria Eça de Queirós
Os Escravos -Antônio Frederico de Castro Alves
Vozes d’África -Antônio Frederico de Castro Alves

12/FEV/2012POR EDSON FRANÇA

Considero o movimento negro o principal, e em muitos momentos solitário, protagonista da luta pela emancipação da população negra do jugo do racismo, trata-se de um ator social que expressa com profundidade as contradições raciais impregnadas na sociedade brasileira, por isso é imprescindível e estratégico para promoção da igualdade racial.

Promover a igualdade racial significa um ajuste na abordagem das relações raciais no Brasil, um conceito relativamente novo, mais completo, pois rompe com a unilateralidade das ações de enfrentamento do racismo. Outrora criminalizando a prática, com isso fixando o racismo no campo da alteridade, atualmente, além de criminalizar, propõe incidir sobre os impactos materiais e simbólicos decorrentes do racismo.

Dessa forma o Brasil aprofunda sua compreensão sobre o fenômeno racial, embora ainda não seja percebido como um elemento estruturante para a marginalidade e pobreza da população negra na sociedade brasileira. Penso que elaborar esse conceito e as propostas de políticas públicas que o ratifique significa o cumprimento inicial da prerrogativa do movimento negro que resume em apresentar demandas gerais e específicas da população negra e propor soluções.

O movimento negro atingiu um objetivo importante para estruturação das políticas de igualdade racial com a instituição da SEPPIR, nesse ato o governo brasileiro reconhece de forma inequívoca a existência do racismo e de seus nefastos desdobramentos na qualidade de vida da população negra e dá fim indiretamente ao famigerado mito da democracia racial, ideologia que exalta a benignidade das relações raciais no Brasil e nega a necessidade de qualquer intervenção do poder público em demandas raciais.

Pode-se dizer que essa vitória coroa de êxito um processo político iniciado em finais da década de 70, que consistiu em sair das salas de reuniões e denunciar publicamente o racismo, intensificar o ativismo da luta contra a opressão racial, participar dos partidos políticos, responsabilizar a ação e omissão do Estado pela condição de sub-cidadania de parcela expressiva da população negra, além de propor insistentemente medidas para superação das violências raciais presentes no Brasil.

No entanto, essa vitória precisa ser complementada com políticas públicas que tenham capacidade de contribuir para promoção social da população negra, sabemos que pela natureza do Estado brasileiro, como qualquer estado capitalista, só é possível obter mais efetividade e eficácia nas políticas de igualdade racial com força política e pressão popular. O racismo produz cenários materiais desvantajosos aos negros, por isso, cabe ao movimento social negro dar conta do desafio de organizar politicamente os pleitos coletivos dos negros.

Sensibilizar o Estado para investir na promoção econômica, social, política, cultural, educacional da população negra exigirá imposição, que deve ser articulada pelo movimento negro, pois o Estado brasileiro é um corpo lento quando tem que se movimentar em favor da massa empobrecida, marginalizada e oprimida. O movimento negro não pode projetar toda sua tática em convencimento de governos, precisa envolver o Estado, por isso leis como o Estatuto da Igualdade Racial e a 10.639/03 são fundamentais para o êxito da igualdade racial, embora conquistá-las e implantá-las demanda maior esforço.

Cabe ao movimento negro organizar a demanda política, social e econômica da população negra, apresentar propostas que se constituam em reais soluções aos problemas apresentados, acompanhar a implantação e avaliar os impactos. Para isso precisamos de um movimento autônomo, comprometido com o Brasil e com o povo brasileiro, pois qualquer ator político que reivindica a representação de metade da população de um país, somente se legitima com um projeto de desenvolvimento de nação que incorpore todo seu povo.

Igualdade Racial no Governo Lula

O Governo Lula foi um verdadeiro desbravador das políticas de igualdade racial no Brasil. Encontrou um país empobrecido, mergulhado no neoliberalismo, ultrajado e dilapidado por uma classe dominante racista, gananciosa e antipatriota. Um Estado essencialmente universalista, com somente 70 anos de experiência em política social entrecortada por quase 30 anos de ditaduras, estrutural e institucionalmente racista, sem conhecimento das condições e demandas específicas de grupos sociais marginalizados. Um Estado sem instrumentos institucionais, administrativos e legais para atuar na promoção da igualdade racial; carente de conceitos para subsidiar a elaboração de políticas para promover a população negra.

O período Lula (2003 a 2010) foi voltado, principalmente, para construir os instrumentais necessários para consecução da política de igualdade racial: aquisição de conhecimento da demanda, elaboração e pactuação da política, aprovação das normativas e das leis, convencimento de atores institucionais em âmbito da união e das unidades federativas, elaboração de projetos e programas.

Todos esses movimentos em pró da igualdade racial receberam críticas e feroz oposição de expressivo contingente parlamentar incluindo parlamentares da base aliada. Se opôs também a grande mídia brasileira, parcela da intelectualidade, além da resistência da máquina pública e de gestores da alta cúpula governamental. É verificável que o Governo Lula preparou as condições para implantação das políticas de igualdade racial de forma abrangente, parte importante de seu trabalho não é mensurável, ainda que seja visível o grande volume de sua obra nessa matéria. Não foi tarefa fácil nem simples, exigiu convicção e energia, em vários momentos os atores centrais desse empreendimento caminharam por estradas turvas solitariamente.

Nos últimos oito anos foram dados passos importantes para promoção social da população mais pobre, os negros foram contemplados por essas políticas. Pesquisa recente do Instituto Data Popular constatou que a maioria dos brasileiros que ascendeu à nova classe média é composta por jovem, mulher e negra, a mesma pesquisa diz que a população negra está mais otimista, acredita mais no Brasil e no futuro. O velho Marx nos ensinou que os fatores objetivos incidem sobre as subjetividades, em outras palavras, em terreno que acirra fome e pobreza o otimismo e a esperança não imperam.

Isso foi possível pela política de fortalecimento do salário mínimo, aumento dos postos de trabalho, maior acesso ao ensino superior, bolsa família, Luz Para Todos, Minha Casa Minha Vida, dentre outras políticas sociais. A meu juízo, o Governo Lula compreendeu que a igualdade racial é promovida com política universal somada a política de ação afirmativa, apesar de iniciais, os resultados dessa articulação foram positivos, precisamos aprofundá-los para que o legado de Lula para igualdade racial dê bons e mais frutos.

O racismo impacta multilateralmente, tem força de produzir desigualdade, por isso é importante somar às iniciativas de igualdade racial o esforço de universalizar de fato as políticas sociais, pois a verdadeira universalização das políticas governamentais e o efetivo embate contra a pobreza estão no escopo do combate ao racismo apregoado pelo Plano de Ação de Durban.

A política de igualdade racial implantada na era Lula impactou positivamente, mas ainda não produziu todo seu fruto e não superou os principais obstáculos impostos pelas forças políticas, econômicas e sociais que se contrapuseram a elas, os inimigos e os adversários continuam firmes, fortes e atuantes. Por isso, avalio que parte importante do arsenal antirracismo produzida nos dois governos Lula ficou no papel, a correlação de forças políticas sensíveis às condições de marginalidade da população negra não tem hegemonia e parte da esquerda brasileira, aliada de primeira hora dos trabalhadores e oprimidos, não tem compreensão profunda dos efeitos do racismo, vacilaram e vacilam em momentos importantes da luta racial.

Movimentos sociais e as conferências e conselhos de política pública 

Tenho dito que, no ponto de vista do governo, Lula acertou quando propôs a realização das conferências temáticas de políticas públicas e instituiu mais onze conselhos dedicados a diferentes áreas de políticas públicas e defesa de direitos. Generalizou uma prática preexistente, de certa forma caminha para institucionalização do controle social, diminui a presença do movimento social nas ruas e estabelece o palco principal de conversação e embate entre governo e movimento social.

Dessa forma foi possível estabelecer um processo contínuo e direto de diálogo democrático com mais de cinco milhões de brasileiros e manter 450 entidades sociais de expressão nacional nas 600 vagas da sociedade civil nos conselhos. Nesses espaços pactuam políticas e o governo define caminhos após oitiva da população organizada. Pode-se dizer que as conferências e os conselhos são uma espécie de assessoria de luxo do governo.

No entanto, após avaliar a realização de várias conferências de políticas públicas verificamos pouca resolutividade, o caráter consultivo das conferências e de grande maioria dos conselhos permite a seleção discricionária das propostas pelos gestores, aliás, permite também negá-las integralmente. Os resultados práticos têm denunciado grande fragilidade das conferências e dos conselhos para o avanço das pautas dos movimentos sociais.

Além disso, o movimento social deve considerar o perigo da perda do protagonismo da pauta política e do ímpeto questionador e revolucionário necessários aos movimentos sociais. Nenhuma sociedade avança nos direitos sociais e políticos dos trabalhadores e do povo com um movimento social fragmentado em compartimentos estanques, obediente, institucionalizado, ferido direta ou indiretamente em sua autonomia e sem o protagonismo das iniciativas.

Considero que os movimentos sociais devem garantir sua presença nas conferências e conselho de políticas públicas como mais um espaço de luta política, mas o palco prioritário dos movimentos sociais para avançar em suas reivindicações, garantirem mudanças e controlarem desvios de governos são as ruas, como foi durante a luta contra o apartheid, a luta pelos direitos civis dos negros americanos, as recentes mobilizações do povo egípcio e outras históricas mobilizações como o Petróleo é Nosso, Diretas Já e Fora Collor.

Desafios à consolidação das políticas de igualdade racial

Há desafios a serem considerados pelo movimento negro para consolidar as políticas de igualdade racial, as principais tarefas são: garantir sua observância na LDO, LOA e PPA, trabalhar para regulamentação e implantação do Estatuto da Igualdade Racial, dar curso ao PLANAPIR, fortalecer política e institucionalmente a Secretaria Nacional de Políticas de Igualdade Racial – SEPPIR, dar caráter deliberativo ao Conselho Nacional de Política de Igualdade Racial – CNPIR, investir mais recursos na estruturação do Fórum Intergovernamental de Política de Igualdade Racial – FIPIR, dar subsídios aos Ministros do STF para obtermos resultado positivo quanto a constitucionalidade das políticas de cotas e do decreto 4887/03, trabalhar para aprovação dos projetos de igualdade racial tramitando na Câmara dos Deputados e no Senado, ampliar a base parlamentar em defesa das políticas de igualdade racial no Congresso Nacional, estimular instituição de frentes parlamentares nos estados e grandes municípios, intensificar diálogo com os partidos políticos, além de disputar a classe média brasileira com vista a obter apoio mais ativo. Para realizar sua missão institucional que consiste em “estabelecer iniciativas contra a desigualdade racial no País”, a SEPPIR precisa ser mais e melhor compreendida por amplos setores da vida política e institucional do país.

Estamos diante de uma pauta complexa, considerando que as políticas de igualdade racial ocorrerão em meio as condicionantes de ordem política, aos desafios impostos a saúde econômica e desenvolvimento do país e aos objetivos que serão perseguidos pelo governo Dilma.

Além das iniciativas da oposição e incompreensão dos aliados, o acirramento da crise econômica, que tem levado nações à insolvência e se aproximado do Brasil, criará condições adversas a igualdade racial. Nesse contexto o risco da Presidenta Dilma adotar uma política econômica mais contracionista e realizar draconianos cortes no orçamento, afetando duramente as políticas sociais, como o contingenciamento de 52 bilhões realizados no exercício passado não está descartado. A crise sempre recrudesce o racismo e denuncia a incapacidade desse sistema em oferecer igualdade.

No escopo das políticas sociais a prioridade anunciada do Governo Dilma é a eliminação da pobreza no Brasil, trata-se de um nobre objetivo, da mais alta relevância para todos brasileiros, especialmente aos negros que se constitui a maioria dos pobres. No entanto se desconsiderarem o racismo como importante elemento fomentador da pobreza, esse propósito não incidirá sobre a desigualdade racial.

Negros e negras compartilhando o poder

A atual gestão da SEPPIR avançou em aspectos fundamentais para o sucesso da política de igualdade racial, acertou ao priorizar no primeiro ano investir grandes esforços para inserir a política de igualdade racial com força no PPA, trata-se de uma conquista que tende a se consolidar, temos que observar atentamente o processo, pois o Estado brasileiro tem dificuldades de avançar para além do universalismo.

Apesar do acerto da SEPPIR, precisamos de muito mais, não concebo a luta pela superação do racismo e pela igualdade racial exclusivamente no âmbito das políticas públicas, por mais vitórias e esforços que se empreendam, a SEPPIR é insuficiente. Daí a importância da luta política para garantir a presença do negro no poder, sabemos que poder não se realiza com concessão governamental, mas com luta política concreta.

O poder no Brasil é um espaço de brancos, os projetos para a nação são pensados e executados por brancos, o país dissemina sua branquitude e nega sua negritude. Somente enegrecendo o poder, colorindo os parlamentos, as universidades, as direções das grandes empresas, as estruturas de direção do Estado, daremos passos concretos no caminho da igualdade racial. Essa tarefa não é exclusiva da população negra, pois o racismo é um dilema humanitário, superá-lo é responsabilidade de homens e mulheres de todas as raças.

As políticas de promoção da igualdade racial não atingem o poder, logo, cabe ao movimento negro a liderança de um projeto político que valorize o voto em negros comprometidos com a luta contra o racismo e contra a opressão de classe para todos os postos públicos, exigir presença negra nas direções partidárias, garantir presença de negros em espaços estratégicos de gestão e impor projetos que fomente o empreendimento de negras e negros. A UNEGRO foi feliz quando estabeleceu o debate do poder como foco de sua abordagem, estamos convictos que se o movimento negro focar esse tema com a mesma força que focou o 20 de novembro, a imortalidade de Zumbi dos Palmares e as ações afirmativas, em até cinco legislaturas mudaremos a cara do congresso e do poder político no Brasil.

Estamos em ano eleitoral (2012), precisamos organizar a participação da população negra nesse momento cívico e político importante, a eleição de prefeitos e vereadores estabelece a base do poder político nacional. É responsabilidade do movimento negro discutir programaticamente os caminhos a serem perseguidos pelas futurs autoridades municipais, oferecer alternativas para combater o racismo e oferecer quadros políticos para ser avaliado pelos eleitores. Negras e negros compartilhando o poder é um desafio de primeira grandeza e imediato.

Avante movimento negro!!!

…é hoje.

Poderia ter sido ontem ou mesmo no dia que voce nasceu, mas se quizer fazer do dia de hoje o marco e divisor de águas da sua vidinha cinza.

É facil imaginar que a gente será feliz no dia que “ganhar na loteria”, que “casar com alguem rico”, que mudar de emprego, que mudar de País…de cara, …de … sei la o que, mas a verdade é que ser feliz depende de nós mesmos e por isso pode ser hoje o grande dia da sua felicidade.

Voce tem que ser feliz em ser como é, em ter o que tem, em ter nascido onde nasceu ou mesmo ser filhoAnjo de quem é, por que a fonte da felicidade esta dentro de voce.

É de dentro de voce que tem que jorrar a felicidade que vai fazer de cada coisa na sua vida, a melhor coisa do mundo. E tudo vai ser importante porque é seu, tem seu toque, tem sua marca…só existe porque voce existe. E quando e onde voce chegar essa felicidade vai jorrar aos borbotões e inundar o ambiente, todos vão sorrir de alegria, os corações vão se abrir para a felicidade e as lagrimas de todos irão secar. Só de pensar nisso ja não deixa voce Feliz? Então amanhã quando acordar diga as seguintes palavras:

OFÓ FÚN BIBO ORÍ

Òrúnmìlá ní odi edún,

Mo ní odi èdún.

Òrúnmìlá ní odi èdùn okán,

Mo ní odi èdùn okàn.

Oní tí egbé eni nbá lówó, tá àbá lòwò, ò ní orí eni l’àá képè.

Oní tí egbé eni bá à nse,

Óhun rere táàbá rí ohún rere se, ò ní orí eni l’àá.

Orí mì, wá se lé gbè léhin mi.

Igba, igba, ní orògbò nso lóko,<o:p></o:p>

Igba, ní obì nso lóko,

Igba, igba, ní ataare nso lóko,

Igba, ajé kó wole tó mi wá,

Oògun, aísàn, ejó, wàhálà,

Ikú, àíríjé, àìrímu kó pòórá.<o:p></o:p>

Tí efun bá wo inú osún ápòórá.

Kí gbogbo wàhálá mi pòórá.

Àwíse ní ti Ifá, àfòsé ní ti Òrúnmìlà.

Àbá tí Alágemo bádá ni Òrisá òkè ngbà.

Kon kon ní ewé inón njó.

Wárá, wárá, ní omodé nbo oko Èsìsí.

Ilé ogbá ònòn ò gbá ní ti àrágbá.

Gbogbo ohun tí mo so yìí,

Kí arò kó ró mò.

Àse, Àse, Àse!

TRADUÇÃO

ENCANTAMENTO PARA PROPICIAR A CABEÇA.

Orunmilá que fortifica os tristes,

Fortifique a mim, que estou triste.

Orunmilá que consola o coração triste,<o:p></o:p>

Console meu coração que está triste.

Senhor da comunidade, aquele que é honrado e respeitado, é a cabeça de alguém cansado que implora a tua ajuda.

Senhor da comunidade, fica comigo,

Que as coisas boas me encontrem e que obtenhamos coisas boas. É a cabeça de alguém cansado que implora a tua ajuda.

Minha cabeça, venha defender a casa e minha retaguarda.

Que de duzentos em duzentos o orogbo cresça na floresta.

Que aos duzentos o obi cresça na floresta.

Que de duzentos em duzentos o ataré cresça na fazenda.

Que aos duzentos, a força do dinheiro entre em minha casa.

Que os feitiços, as doenças, as confusões, as aflições,

A morte, a fome e a sede não tenham lugar na minha vida.

Quando o efun entra no osun este desaparece.

Que todas as minhas aflições desapareçam.

Que a palavra de Ifá e a de Orunmilá se realizem, como uma canção.

E ao encontrarem Alaguemo, se realizem desde o alto, através dos Orixás.

A folha do fogo queima rapidamente (que minhas súplicas sejam assim realizadas).

Que haja leite com fartura para as crianças, como na fazenda de Esisi.

Que minha casa, meus caminhos e meus conhecidos se tornem grandes.

Que todos os meus pedidos desabrochem e transformem-se em realidade,

Para que, ao nascer o dia eu encontre a felicidade.

Axé, Axé, Axé!

 

“As elites, sempre terão umas migalhas a oferecer, para aqueles que não são convidados para os banquetes”

Joaquim Nabuco

Antes de escrever este documento, nós da Coordenação Nacional do Coletivo de Entidades Negras/CEN, tivemos a preocupação e a responsabilidade de ler o que publicaram os principais jornais do país sobre a Aprovação do Estatuto da Igualdade Racial. Afinal de contas, o Estatuto era o depositário fiel de mais de 10 anos de luta do movimento negro, e lá estava contido, após vários debates acalorados e construções diversas, os anseios da diversidade de entidades que compõe o movimento negro nacional.

É importante relembrar que nós do Coletivo de Entidades Negras/CEN fomos a favor da aprovação do Estatuto e defendemos este ponto de vista dentro da II CONAPIR (Conferência Nacional de Promoção da Igualdade Racial). Entendemos que as diretrizes que apresentadas em junho de 2009, continham os elementos necessários para o apoio à aprovação do Estatuto naquela época, com base no Projeto de Lei Substitutivo elaborado pela Comissão Especial da Câmara dos Deputados

Juntamente com outras importantes entidades do movimento negro sentamos com o na época Ministro Edson Santos e entendemos a importância de aprovação do Estatuto da Igualdade Racial nos moldes daquela época, ou seja, sem os cortes estabelecidos pelo Senador Demóstenes Torres e que acreditávamos inegociáveis.

São eles:
1. O caráter autorizativo e não determinativo do projeto;
2. A eliminação dos termos raça em todas as instâncias e termos em que foi alterada, suprimida ou substituída;
3. A escravidão e o tráfico de escravos como crime, imprescritível, contra a humanidade, daí a necessidade de Reparação;
4. Às Cotas raciais e toda a sua dimensão e contra a perspectiva de que este é um quadro social, uma vez que, segundo o relator, raça não existe daí a pobreza ser elemento imperativo para a manutenção do status quo;
5. A manutenção das vagas de 10% de para candidaturas de representações de negros e negras nos partidos políticos;
6. Modificação no Código Penal dispensando a exigência de representação do ofendido para processamento de crimes contra a honra (injúria, calúnia ou difamação) praticados contra funcionário público em razão de suas funções;
7. Políticas nacionais de saúde específicas para os negros. Com a manutenção de todas as referências para reduzir a mortalidade de mulheres negras;
8. Concessão de incentivos fiscais às empresas com mais de 20 empregados que mantivessem uma cota mínima de 20% de trabalhadores negros;
9. Reconhecimento dos territórios tradicionais quilombolas – terras ocupadas por remanescentes de quilombos em toda a sua dimensão.

Infelizmente, desde agosto do ano passado, em nenhum momento, fomos consultados pela SEPPIR sobre o tema, ou sequer foi constituído um Grupo de Trabalho, conforme sugerimos, composto pela diversidade do movimento negro com o objetivo de discutir quais os limites máximos possíveis para a aprovação do Estatuto.

Ou seja, até onde nós militantes do movimento negro, sujeitos exponenciais, e importantes referências para criação da SEPPIR estávamos disposto a ceder com relação ao Estatuto e qual a estratégia e percurso máximo que poderia ser percorrido para conseguirmos a aprovação nesta legislatura, ou se deixaríamos para um próximo momento. Ou seja, seria uma questão de método, de unidade, de interação entre sociedade civil e governo.

Prevaleceu, entretanto, a falta de diálogo e a truculência até o último momento. E isto, cabe a nós denunciar.

É importante saber o papel de cada um na história e as diferentes posições de cada um de nós. Governo tem o seu papel. Inclusive os militantes quando ocupam estes cargos e nós do movimento negro temos o nosso. Certamente a nós cabe uma reflexão e claro a necessidade de montar uma estratégia para trabalhar as possibilidades de diálogo com a Casa Civil antes da sanção deste Estatuto.

Sim amigas e amigos, uma vez que a SEPPIR não teve e não sabemos se deseja ter um diálogo aprofundado e respeitoso junto às entidades negras, devemos avançar. Não de encontro SEPPIR, pois ela é uma conquista nossa e em defesa dos nossos ideais, mesmo que alguns, principalmente que estão lá dentro, não a enxerguem assim.

Não podemos abrir mão disto. Este é o nosso papel e sabemos disto.

Não podemos deixar que toda a sociedade entenda e acredite que a mutilação do Demóstenes Torres sob o Estatuto foi aceita, negociada e incorporada por nós. Não foi! E com certeza esta é função e responsabilidade nossa, neste exato momento, informar a todos e por todos os meios.

Temos um papel importante a desempenhar, assim como teremos em um futuro próximo ou distante que sentar para discutir sobre o Estatuto aprovado e ver o que nós, e tão somente nós, entidades do movimento negro fazemos com ele. Afinal de contas, ele é nosso e não contaremos com o apoio da mídia e dos setores reacionários ou os ditos progressistas, sejam eles dos governos ou não.

Dentre as diversas lições deste episódio, fica a necessidade da SEPPIR aprender a conversar, pois por diversas vezes e em diversos momentos foi criticada justamente por conta disto, a falta de diálogo respeitoso e cuidadoso com o movimento. Também fica para nós a necessidade de rearticularmos os nossos fóruns, independente de apoios e estruturas dos governos. Relembrar outros momentos da história do movimento negro em que tocamos ações importantes e históricas sem ficar acreditando o que o governo iria responder a todas as nossas inquietações.

Qualquer movimento sucumbe se entregar todas as suas fichas nas mãos de qualquer que seja o governo, por mais que se acredite que o mesmo seja progressista e em qualquer legislatura que venha a ocorrer.

O Coletivo de Entidades Negras entende que o momento não é de culpabilizar pessoas individualmente, mas de ampliarmos a nossa base no Congresso e redefinirmos quem serão aqueles que merecem ou merecerão o nosso apoio durante o novo pleito eleitoral que se aproxima.

E assim delibera:
1. Pela necessidade de encaminhar para a Casa Civil da Presidência da República o posicionamento de todas as grandes entidades que se posicionaram pela retirada do Estatuto da Pauta do Senado, levando em consideração, que quem se posiciona em um momento político e histórico como este, são tão somente denominados de grandes;
2. Entende que aqueles que no dia seguinte agem como bastiões da moralidade e com posicionamentos proféticos sobre armadilhas futuristas não devem ser levados em consideração. A omissão é criminosa e não faz parte da nossa luta. Preferimos acreditar que foi apenas um posicionamento individual e equivocado de quem perdeu o trem da história e necessitava falar algo, e sendo assim não fez as reflexões necessárias. Apenas falou pela necessidade de dizer algo;
3. Compreende a urgência de protocolar um documento no Supremo Tribunal Federal – STF informando a manutenção das nossas bandeiras e da importância da permanência das Cotas e de toda e qualquer política de ação afirmativa às questões que nos são pertinentes;
4. Reafirma a importância da defesa junto ao Supremo Tribunal Federal – STF, da manutenção do Decreto 4.887/2003, que regulamenta o procedimento para identificação, reconhecimento, delimitação, demarcação e titulação das terras ocupadas por remanescentes de comunidades quilombolas de que trata o art. 68 do ato das Disposições Constitucionais Transitórias, acerca das titulações das terras quilombolas;
5. Reafirma a importância e necessidade de que o Estado Brasileiro garanta o direito fundamental de acesso ao território quilombola, como instrumento para promoção da igualdade e justiça social, e a promoção e proteção do pluralismo étnico-cultural, aspecto relevante para toda a Nação;
6. Solicita o retorno imediato do Projeto de Lei 73/99 (PL Cotas) que tem como relatora a senadora Serys Slhessarenko para a pauta de discussão no Senado; O PL COTAS prevê a inclusão de alunos em universidades públicas brasileiras por meio de cotas sociais e raciais e tramita há 10 anos na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado;
7. Oficiar junto ao Ministério da Saúde sobre a importância da manutenção de toda a política já construída tendo como ponto focal a saúde da população negra;
8. Encaminhar junto a Secretaria Especial de Direitos Humanos/SEDH documento referente à importância da garantia da integralidade do III PNDH que dispõe em seus artigos, importantes pautas reivindicatórias do movimento negro, a exemplo do racismo como crime contra a humanidade e outros dispositivos;
9. Reafirmar, junto a Presidência da República de que estamos atentos e vigilantes a toda política voltada para a população negra brasileira como forma de ampliação dos direitos democraticamente conquistados ao longo dos anos pelo movimento negro em sua diversidade de ações e articulações;
10. Fazer valer a Lei 10.639/2003 e todos os Princípios da Convenção Internacional pela Eliminação da Discriminação Racial;
11. Posicionar-se, junto a Presidência da República sobre os encaminhamentos necessários antes de sanção do Estatuto da Igualdade Racial de modo que o mesmo não vire um estatuto folclorizado e dissipador de mais discórdias e divisões entre nós;
12. Buscar meios para a construção de uma Assembléia Popular com as Entidades que se posicionaram e ainda se posicionam, frente a necessidade da retirada do Estatuto da Igualdade Racial de pauta, tão e só justamente, pela relatoria racista e desqualificada do Senador Demóstenes Torres.

Enfim, que tenhamos a responsabilidade e os cuidados que não conseguiram ter conosco, afinal, estamos sob a nossa própria sorte.

Que Oxalá nos abençoe, e nos dê disposição e saúde.

Marcos Rezende.
Coordenador Geral do CEN
Brasil, 18 de junho de 2010

O evento terá apresentação de dança, capoeira e um fórum para debates. Fotos: Divulgação
Praia Grande A diversidade cultural e religiosa de identidade negra estará presente no Palácio das Artes, de 16 a 20 de novembro, quando acontece a Semana da Consciência Negra. Promovida pela Seção de Patrimônio Histórico da Secretaria de Cultura e Turismo (Sectur), em parceria com o empresariado do Município, o evento busca discutir com a sociedade civil a importância da preservação e do respeito à cultura de matriz africana. Na programação estão apresentações de dança, capoeira, exposições e um fórum para debates. Todos os eventos são gratuitos e abertos ao público.

“O projeto de formatação da Semana da Consciência Negra existe desde 2001, mas só agora, com a inauguração do palácio das Artes, o Município ganhou um espaço apropriado para a realização de um evento desse porte”, comenta a chefe do Patrimônio Histórico da Sectur, Mônica Solange Rodrigues Silva. “A importância da Semana da Consciência Negra vai muito além dos limites do Município: é uma forma de discutirmos e chamar a sociedade civil para um diálogo permanente, a respeito da promoção da igualdade racial, e ferramentas necessárias para isso”.

Mônica destaca ainda o processo de formatação do evento, que contou com a opinião de representantes de setores da comunidade negra: “Formamos uma comissão, para garantir que a Semana da Consciência Negra se configurasse em um evento abrangente e representativo, não só pelas manifestações culturais nele representadas, mas também na escolha dos convidados que comporão a mesa de nosso fórum: teremos representantes dos setores religioso, educacional, cultural e até mesmo da área de saúde. Temos ótimas expectativas”, garante.

Confira a agenda da Semana da Consciência Negra

De 16 a 20: Exposições comemorativas

Salão de Eventos

Das 14 às 17 horas

Um olhar sobre nós: exposição fotográfica sobre vários temas relacionados à Cultura Africana e afro-brasileira, com a intenção de provocar a africanidade existente em todos nós.

Tumbuctu: Em conjunto com o espetáculo musical, é uma exposição de artes concebida à partir da herança africana, tendo como objetivo a promoção da cultura afro-brasileira. O projeto é coordenado pelas professoras Fernanda Iannuzz (dança) e Solange Cunha (Artes)

Dia 16 – Grupo Afroketu

18 horas

Teatro Serafim Gonzalez

A Associação Cultural Afro Ketu, que está baseada no bairro Morrinhos, em Guarujá, trabalha pelo resgate da cultura africana e afro-brasileira, e também no processo de formação da identidade do negro na sociedade nacional. O espetáculo envolve dança e teatro e traz ao longo das coreografias interpretações e reflexões sobre a história do povo negro e afro-brasileiro, desde a fundação de Palmares até os dias atuais; tem duração de 45 minutos e é composto por 38 participantes.

Dia 16 – Fórum “Igualdade Racial”

20 horas

Teatro Serafim Gonzalez

Convidados: Dr. Ivo Evangelista (Presidente do Conselho Municipal da comunidade negra de Santos – SP), Julio Evangelista Santos Junior (Coordenador executivo do projeto Educarfro – Regionl Baixada Santista, vice-presidente do Conselho de Participação e Desenvolvimento da Comunidade Negra de Cubatão – SP e coordenador do Fórum Metropolitano de Desenvolvimento de Juventude Negra da Baixada Santista), Carmen S. Prisco (vice-presidente do CNAB – Região Metropolitana da Baixada Santista e Vale do Ribeira, secretária de relações institucionais e parcerias estratégicas do Instituto Oramilade), Dr. Roger Taussig Soares (diretor acadêmico da Faculdade de Teologia Umbandista) e Wagner Francisco da Costa (coordendor estadual da rede nacional de religiões de matriz africana e saúde).

Dia 18 – Homenagem aos Mestres de Capoeira

18 horas

Teatro Serafim Gonzalez

Homenagem aos mestres capoeira que introduziram o esporte na Baixada Santista, com grande espetáculo de ritmos e danças afro, como Puxada de Rede, Maculelê e Samba de Roda: As apresentações serão realizadas por membros da Associação de Capoeira Praia de Paranapuãn e convidados, com 50 participantes. Espetáculo Herança de Palmares.

A Associação Cultural Afro Ketu, que está baseada no bairro Morrinhos, em Guarujá, é uma associação que preserva e trabalha com o resgate da cultura africana e afro-brasileira e também no processo de formação da identidade do negro na sociedade nacional, resgatando a contribuição do povo negro nas áreas social e política pertinentes à História do Brasil. O Espetáculo envolve dança e teatro e traz ao longo das coreografias interpretações a reflexões sobre a história do povo negro e afro-brasileiro, desde a fundação de Palmares até os dias atuais; tem duração de 45 minutos e é composto por 38 participantes.

Dia 20 – Encontro de Capoeiristas

14 horas

Salão de Eventos

Reunindo cerca de 100 capoeiristas da Associação Praia de Paranapuãn e convidados. Durante o evento, trançadeiras afro farão gratuitamente o penteado nos visitantes.